Insólito: o poema “Ávila” de Murilo Mendes e a canção “Cantiga de boi” de Caetano Veloso

Texto para o grupo OCO, UFSC (Florianópolis)

ÁVILA

A José Bergamin

O aeronauta conduz a bordo a palavra silêncio.
Sobrevoamos Ávila, composição abstrata.
O avião abrindo curvas dá guinadas
Como os movimentos da alma na escrita de Santa Teresa.
Ávila absorvida, surge Madrid à frente:
Subimos agora as ladeiras da descida.

*

Volto a ver Ávila, contornada a pé.
Em Ávila recebi minha ração de silêncio maior
E pude decifrar o texto do meu enigma:
Deus permitiu que eu cresça desde o início
No espaço árido da minha fome e sede.
Permitiu que eu tocasse o núcleo da minha origem,
Eu que sou o não figurativo, o não nomeado,
O não inaugurado, o que sempre se perfaz,
Nutrido pelo sol interior que acende o esqueleto;
Alguém que é ninguém,
De amor consumido pelo Nada ou Tudo,
O que nunca abriu a boca, nem supõe o milagre,
Habita na aflição, na densidade,
Sem Espanha e com Espanha.
Que muero porque no muero.

*

Severa e castigada, Ávila funda
O espaço criador do espaço,
A pedra macha de Espanha
Que cerra o segredo.

(Murilo Mendes, Tempo espanhol)

 

Na canção Cantiga de boi (de 2000)Caetano Veloso tece os seguintes versos de abertura: “Meça a cabeça do boi:/ Um CD colado à testa”. A justaposição de realidades, do arcaico ao moderno, é sua arma poética — não só aqui, mas em boa parte de suas letras e como um dos cernes de seu empenho artístico. É a presença do insólito, do escandaloso. Mas, ao contrário do que seus críticos costumam gostar de não entender, trata-se de uma atitude de desbunde que prepara uma cilada, a de trazer junto um trabalho, caprichoso, da razão. Pois o boi (e a interpretação aqui é de autoria do meu amigo Gilberto Caldat), que segue o canto do aboio, segue um canto que é feito de caos sonoro, de notas indistinguíveis, de todas as notas ao mesmo tempo, da dissonância rasgante, de vários e vários caminhos servindo de guia, ou engano, para que o boi siga um destino uno, vendo nele, ou melhor, ouvindo nele, todos os outros, a pedido do homem. Este caminho é todos, é iridescente[1]palavra que aparece no final dessa primeira “estrofe”, e que é como a parte detrás do CD que, num primeiro momento, não tem cor, sendo puro espelhamento, mas que se revela logo tendo todas as cores, em seu jogo de luz. O caminho que o boi, na sua determinação enfeitiçada, sua fé, segue é ultra-moderno, está no futuro, porque não supõe fora, está sempre à frente. Não supõe peso passado, não supõe estar perdendo nada; obedecendo o canto do caos (avesso ao da ordem) o boi não sente o peso da única rota equivocada, como nos exercícios mentais do rancor que fazemos.

De igual maneira, Murilo Mendes justapõe duas realidades que qualquer carola ou místico rigoroso (ou ainda um estudante de letras de humor parnasiano) poderia achar de extremo mau gosto: “O avião abrindo curvas dá guinadas/ Como os movimentos da alma na escrita de Santa Teresa”, escreve em Ávila. O moderno do avião faz ver a cidade do alto como uma pintura abstrata, e faz o poeta imaginar que seus movimentos e revelações podem ser tomados como um espelhamento das descobertas interiores, igualmente violentas e anti-naturais, de Santa Teresa. Não é que todo passageiro aéreo venha a estar exposto, necessariamente, a descobertas místicas ou que a insana investida tecnológica da humanidade tenha uma missão concreta de santa reconciliação[2], mas o poeta, absorvendo o lixo moderno, vê no insólito uma maneira de gerar revelações, pela própria violência do procedimento – erroneamente visto como privilegiado, e não como um entre outros. “Subimos agora”, e podemos aqui pensar no tempo da poesia, “as ladeiras da descida.” Como numa convocação de entusiastas, o insólito faz reconhecermo-nos como habitantes do baixo, como donos de partes baixas, como sofredores de uma tragédia “que cai sobre todos nós”, como cantou outro músico[3]Saímos do alto, do abstrato transparente, para escalar o baixo, o convívio terreno.

Na estrofe e parte seguinte (o poema está divido em três partes), Murilo afirma ter recebido, em Ávila, a sua ração de silêncio. Só o humano pode receber um alimento em forma de silêncio, mas, ainda assim, é parte de sua parte animal que é revelada ao tocarmos o assunto (baixo) de sua vida orgânica, na insólita palavra escolhida para o dom recebido. A partir dele, o poeta afirma então a possibilidade de “decifrar o texto” de seu enigma, que permite a ambiguidade de interpretarmos essa decifração como aclaramento do texto do enigma, de sua efetiva realidade, não do enigma em si. As poderosas imagens seguintes depõem nessa direção: o amor é consumido por Nada… ou Tudo; aquele que se reconhece na imagem de Deus nunca abriu a boca, nem supõe o milagre; a sua revelação se dá num lugar com nome determinado, mas este nome é também negado para ser inutilmente reafirmado, “Sem Espanha e com Espanha”; entre outras. A parte do poema é concluída com a frase de Santa Teresa “Que muero porque no muero” que, de tão forte, poderia estar na lápide da humanidade: aqui jaz aquele que morreu sempre, e que agora não vive porque não morre ainda mais. É vivendo que experimentamos a força da finitude, morrendo sempre. O sagrado talvez seja, em seu máximo aspecto, a nossa cantiga de boi.

O poema conclui com uma indicação de força originária de Ávila que se desdobra na abstração vazia, aberta. Há uma autoridade e um desperdício em “o espaço criador do espaço”. Um Nada criador de Nada, como qualquer obra humana, mas que só por ser Nada pode abrir espaço, pode ser, e tem que arcar com o peso de ser, sempre aberto. Nesse espaço em que um homem, poeta, fala de um mulher, santa, o poema em homenagem a uma cidade de nome feminino, Ávila, termina com a afirmação de que é este local que funda também a pedra macha de seu país. Por coincidência, li por esses dias Lua defronte, um dos poemas primeiros de Jorge Luis Borges, onde a mesma palavra, filha da liberdade poética, aparece, aqui quando o autor define seus pampas como “Planura sofrida e macha que estás nos céus”. No poema que homenageia diretamente Santa Teresa, Mendes irá colocar entre aspas um mistério, que é masculino e da Espanha, e que Teresa decifra. A pedra da Espanha é macha não como um elogio à virilidade ou com uma masculinização do feminino, mas muito mais como uma ironia à concepção que procura no céu o que está no chão, em forma de pedra, planura.

Diogo Araujo

[1] “Que tem as cores do arco-íris”, segundo o Houaiss.

[2] Murilo detestava a tecnologia como se pode ver, por exemplo, no filme A poesia em pânico. https://youtu.be/xrTBAh_sbTc

[3] Milton Nascimento em Promessas do sol de Geraes.

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Glosa poética, ajuntamentos:

“Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos
assim te levo comigo, tarde de maio”

(Tarde de maio, Drummond)

“Para os povos arcaicos, o momento da extrema angústia permanece ligado à fase de decomposição: os ossos secos não têm mais o aspecto intolerável das carnes corrompidas de que os vermes se nutrem. Confusamente, os sobreviventes veem, na angústia ligada à corrupção, a expressão do cruel rancor e do ódio de que são objeto por parte do morto, e que os ritos de luto têm por fim apaziguar. Mas pensam que os ossos secos respondem ao apaziguamento desse ódio. Esses ossos, que lhes parecem veneráveis, introduzem um primeiro aspecto decente – solene e suportável – da morte; esse aspecto ainda é angustiante, mas sem o excesso de virulência ativa da putrefação.”

(O erotismo, Bataille)

Em Havana – César Aira

José-Lezama-Lima

As memórias dos poetas, em suas existências precárias nessa civilização, também são falseadas, às vezes, pelos próprios admiradores de poesia. O ordinário, o sujo, o doentio anti-ergonômico e o convulsivamente irado do dia a dia do poeta e da poesia são trocados pelo fetiche do sentido oculto e da identidade rara, do limpo e delicado, nesse agora utopos, a poesia.

Essa pode ser uma boa chave de leitura para a novela Em Havana, de Cesar Aira, publicada em Florianópolis pela Cultura e Barbárie Editora, traduzida por Byron Vélez Escallón e Joaquín Correa.

Em meio a um cenário de pobreza e sujeira, decadentismo puro, apontada por vizinhos em disparates-quaisquer-bem-intencionados, decorada, em sua recepção, por jovens negros que dormem num banco às 10 da manhã, a Casa Museu do escritor Lezama Lima é, no início do livro, visitada por esse narrador algo dândi.

Sua visita oscila entre o nojo, o amor ao ordinário, o ensaístico inspirado e a pura enumeração de exterioridades, chaves que se tornam, todas, pura literatura.

A narrativa, se é que se pode chamar assim um texto que se encaixa em vários gêneros de prosa, é, por essa dúvida mesma, bastante contemporânea. Ela nos faz emergir no contemporâneo.

Ora voyeur culto, ora o mais comum dos chatos, este narrador encarna, sobretudo, a aceitação de olhar o real pelas mais diversas lentes possíveis. A edição é belíssima, trazida pelas mãos (literalmente) da Cultura e Barbárie.

Trecho (muito bonito):

“As fotos enganam nos tamanhos, e nessas visitas aos lugares reais sempre se trata de tamanhos – a gente vai até eles justamente porque os veio habitando na imaginação há muitos anos, no sistema de tamanhos relativos com que opera a fantasia, e a peregrinação se faz quase que somente para viver o tamanho absoluto; mas uma vez lá, as duas classes de tamanhos, os relativos e os absolutos, se misturam. Também se mistura o antes e o depois da visita propriamente dita, que costuma ser breve. No meu caso, brevíssima. Quanto tempo fiquei na casa [museu] de Lezama? Cinco minutos, seis? Sempre me proponho a tomar meu tempo, anotar o minuto da entrada e o da saída, e sempre esqueço, mas estou certo de que me comporto como o relâmpago, devo bater recordes. Vou em todos os museus de todas as cidades que visito, e por grande que seja meu interesse nos tesouros que contêm os atravesso como uma flecha. Não sei se é impaciência, estupidez, derrotismo, o certo é que me dá uma pressa intransigente, e num abrir e fechar de olhos estou do lado de fora. E, entretanto, vejo tudo, paro um segundo, ou meio segundo, diante de cada quadro, pensando ‘já deve ter dado tempo para lembrá-lo’, e é claro que depois esqueço de tudo.” (César Aira – Em Havana ps.8-9.)

 

Precisamos (mais) de mulheres (mais) fortes. E homens o que?

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Galera que cultua Frida Kahlo e espiritualidade manja que são duas coisas bem difíceis de fazer ao mesmo tempo né? Mais claro: o uso de imagens de culto é bastante recorrente nas religiões e um dos principais motes da pintura da Frida é caricaturizar agressivamente essas imagens. Senão analisemos o quadro (e não “imagem”) em anexo.

Bom, que Kahlo tenha se tornado um ícone é claro pra todos e todas. Que teve uma vida no limite do suportável também. Que estamos dentro de uma civilização inteira voltada ao patriarcalismo e displicente da figura da mulher idem. Agora, uma pergunta, a qual sempre parece fugir dos comentários habituais (claramente tão pouco profundos em seus pactos emancipatórios quanto encontros de fofoca): qual o sentido da arte de Frida Kahlo?

Arrisco aqui um caminho: destruir o culto hipócrita às imagens. Tipo aquela imagem, por exemplo da deusa Shiva, que atrai seu respeito muito mais do que “o porteiro do seu prédio”. Claro, o sentido é claro: o porteiro é real, ora bolas, e, cá entre nós, o real é muito mais difícil de lidar do que o religioso.

Uma Kahlo com rosto imenso, extremamente caricatural, aparece chupando os seios de uma ama-deusa negra. O rosto da ama é mais preto do que a morte. De um seio vaza leite. Mas Frida chupa o outro: à procura de flores. Existe uma única folha brilhante atrás da cabeça de Frida. Seria um convite para o qual, em sua inocência, ela não dá atenção ou um inconsciente. Chove. Estamos no meio do mato. Olhamos e somos olhados para e por quem? Para e pela a fragilidade humana, provavelmente.

Como tirar a miséria da arte e manter a vida? Arrisco outro palpite: que assumamos que superficialidades, amor à imagem, entretenimento e dinheiro, tudo isso e mais é bom; além de Interioridades. Caso contrário, seremos inevitavelmente hipócritas e, nessa hipocrisia enciumada de grandezas, aí sim, machistas e preconceituosos.

Homem que é homem abraça sua androgenia teatral e natural

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O mau-gosto é sempre antecipado, raramente racional. O exercício de aceitar e endossar é visto como um gesto trans-estético, ou seja, a ética invade a arte, até em seus mínimos detalhes.

Quando um artista se reinventa do zero como é o caso do Daniel Johns, antes de entender os conservadores da arte (principalmente roqueiros rebeldes) gostam e gozam com o não entender: pegam o óbvio e, longe de conseguirem ler o que acontece e apresentar o lido de maneira esteticamente justa, fogem do mau-gosto, em geral imersos em preconceitos (aqui de gênero), e fazem uma miséria de leitura da arte –sim, a tal da arte existe, não?

Este vídeo com a apresentação ao vivo de Preach (umas das raras perfomances do espetacular álbum Talk) é um caso bastante emblemático disso. Os desentendedores, os aparentemente inteligentes jovens amantes da arte, os destruidores, quase inocentemente presos ao caráter de impressão da arte (que nunca pensa e nunca consegue ler a obra como puramente desafiadora, antes sempre tendo que a ler e ter como amigável) dizem: “o carinha do Silverchair está se vestindo como um rapper branco rico, olha que ridículo, com correntes, e tudo e agora está bombado; esta música é bem ruizinha, ficando em três acordes; não gostei dos efeitos da voz, hahaha”. E…Fim.
.
Proponho uma outra leitura da performance em questão: Daniel é bastante inteligente e está conscientemente zombando do figurino rapper, aliando às vestes associadas ao tipo másculo o seu jeito andrógeno e bissexual, aqui pendendo para o homossexo, mas com bastante músculos.

Sua letra é agressivamente “sádica”, em um primeiro sentido, por falar do tema que é bastante difícil de ver associado aos hip-hopers, sempre enturmadinhos em sua literatura de criaturas da noite e do crime, penal ou estético: “eu” branco, bonito, solitário, é que “sou uma sombra”; ou “eu poderia correr rua alta abaixo/ mas isso seria uma mentira” ao menos pra ele, que afirma: “agora eu prego aos solitários.”

Inverte-se, dessa maneira, a crítica mais imediata e óbvia e o artista emerge, afirmando-se como corajoso e de não-óbvias coragens. Diria até que esta performance tem algo de dadá, em todos os abraços ao ridículo de várias das gestualidades, como nos trejeitos encenados na última menção ao verso “I could run down the high street”.

A acusação de pobreza musical da canção também é vítima da aparência, pra não dizer de preconceito ante a linguagem pop. Por meio de três acordes, Daniel conseguiu criar uma melodia inventiva, cheia de variações ousadas, com belíssimos timbres e floreios vocais, tendo como resultado uma estética eminentemente contemporânea (apesar de, dou meu braço a torcer, mais bem apresentada na versão original do álbum, dado seus apetrechos eletrônicos).

Esta versão ao vivo é bastante crua, mas igualmente bela. Volto a ressaltar a coragem desse artista que, sinceramente, em face ao menos da maior parte dos cantores brasileiros contemporâneos com pendor andrógeno (moda dos dias) é muito mais talentoso musicalmente, mais independente, mais silencioso e mesmo de literatura mais rica. Isso é só uma generalização, curto alguns dos nomes da nossa música atual, mas fica aí registrado o meu amor ao polemismo lúcido (aqui caberiam risos).

O artista deve conseguir andar sozinho e não somente em bando. Deve ter talento técnico individual – se quiser chamar atenção. Deve também poder pregar aos solitários e não apenas convocar para as facilidades do protesto sem forma. (Com forma é bem legal.)

Publicando a realidade na internet

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Ou: desconfiando do texto que agrada.

Não adianta conversar, nem com boa parte dos “esclarecidos”: vamos sair da internet?, isso é só um post. Nesta foto em que junto o tema da infância com humor negro (minha foto de perfil na semana do dia das crianças, em que apareço novinho no mundo fazendo coro aos slogans do Trainspotting) obviamente não há vontade alguma de provocar mal estar nos meus concidadãos. Mas também quando escrevo “existem feminismos e feminismos” na minha linha do tempo, apontando para um evidente caso de uso distorcido daquela ideologia, a leitura que pega a frase em separado e afirma (como foi o caso) que com isso estou dando margem à interpretação machista e “prestando um desserviço ao movimento”, soa ameaçadora quando lembramos que estamos apenas em um perfil pessoal de rede social.

Não me julgava tão poderoso. Minha foto do perfil, hesito em a avaliar, sim, é só uma foto exposta numa realidade virtual e não um livro-tratado sobre técnicas de comer criancinhas, nem uma convocação para a marcha dos neotarados. E a acusação sombria dos nossos tempos, repetida a todo momento, é esta: você pode estar enganado. Daí, dessa requisição de constante autoexame de aparências, provavelmente se origina o vazio de ações ousadas, de valorização da literatura, de arte violenta e forte usando sua liberdade e seu poder de ambiguidade (trágica). (A mídia ninja que me desculpe, mas sinto falta de crônicas mais fortes literariamente, textos explorando a riqueza da palavra, redigidos por um autor culto, urbano, violento e lírico na linhagem Gore Vidal… ou Nelson Rodrigues.)

Os aliados (esses que nem ocupam as ruas, nem fazem arte nesses nossos dias, provando que sem crise é mais fácil protestar) devem ser criticados — como exercício constante. Mas não: a esquerda nasceu com o ego dos já redimidos. Devemos realizar também a ação simbólica violenta. Nossa incapacidade de solidificar um esclarecimento nacional nos mostra algo muito forte sobre a história da nossa inteligência, estando muito bem expressa no sentimentalismo que, um dia após uma manchete de grande ato, já amolece na emoção de dever cumprido. O dia a dia dos nossos trabalhadores deve ser tão árduo (e eu sei que é) que impossibilita a atividade mental pós-expediente: só isso pode justificar o amor ao Facebook e o horror ao texto aprofundado. É por isso que qualquer post descuidado pode ajudar a fazer vir à tona o nosso nacionalmente amado complexo de bicho papão, aquele que emerge ao ver na sua frente a imagem, a mera imagem (essa portadora de tolos conteúdos), que não quer ver.

(“No curso da História, os textos explicavam as imagens, desmitizavam-nas. Doravante, as imagens ilustram os textos, remitizando-os” — Vilém Flusser.)

Sim, a internet serve também como meio de comunicação e também de notícias e textos realmente interessantes, mas eu não sei desde quando este meio se tornou o essencial, o provável maior ocupador de tempo de uma improvável formação, nem desde quando passamos a acreditar que cada um de nós porta a competência (ou se é a mera vivência de uma fantasia) de ser jornalista e editor de notícias, divulgadas em um perfil privado, que são medium para o novo mundo, este que nunca está pra tomar o seu devido lugar neste mundo. Esta suposição de capacidade, completamente irreal, precisaria ter como base sabermos a hora de ler notícias (verdadeiras) e a hora em que devemos ler um texto realmente profundo que vai adicionar riqueza ao nosso léxico e poder interpretativo. Isso, que também é ação, não é o que acontece. No máximo temos o bom gosto de ora postar protestos carregados, ora passar adiante a notícia de algum evento de arte cult.

O melhor, acho, é assumirmos: a internet serve para entretenimento. Formação ou informação é aquilo que deveríamos estar fazendo fora dela: em leituras, escritos, diálogos, cursos, trocas, exercícios com dinâmicas realmente escolhidas para desenvolver ideias, etc Se conseguimos realizar isso pela internet (ou sobrando tempo para nela navegarmos), excelente, mas suspeito que a maioria de nós não consegue e que o real papel deste milagre revolucionário seja o de cumprir o personagem simultâneo e bipolar de muro das lamentações e salvador de edens do imaginário — compensação sublimatória para o sentimento de impotência.

O mundo também é tato e cheiro: diria até que hoje nossas experiências privilegiadas podem neles encontrar melhores conceitos do que na visão e na audição. Mas, tão imersos estamos na fila para atingir os bens imaginários que todos querem, que deixamos de saber usar o corpo com o mais natural controle. Disciplina se tornou palavra negativa, aquilo que, a despeito das aparências, sugere aos neurônios sacrifício e velada inconformidade. Deveria ser o contrário: disciplina como o caminho para tornar natural e fácil o máximo aproveitamento de uma capacidade. Eis porque nossa civilização é ignorante e geradora de ignorância em série, sabem deus e diabo até quando: criamos o hábito disciplinado de tirarmos o nosso mínimo com o maior esforço, o que nos faz crer não na vida da vida que nos está próxima, mas na vida da imagem.

Somos uma sociedade tão perniciosa que, no momento mais próprio de doação, não damos parabéns a alguém. Nós damos parabéns, esperando um obrigado pelos parabéns, que nada mais são do que os parabéns por termos dado parabéns. Talvez a atitude mais revolucionária e afirmativa seja a ironia, além da ação silenciosa e concentrada. Aquela muito bem satirizada nesta que é minha frase preferida do momento, tirada de uma peça do Ibsen, As colunas da sociedade:

“‘O que a senhora fará em sua sociedade, srta. Hessel?, perguntou Rörlund. ‘Deixarei entrar o ar puro, pastor’.”