Didi com Scanner

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Diários – Paul Klee.

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Em Havana – César Aira

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As memórias dos poetas, em suas existências precárias nessa civilização, também são falseadas, às vezes, pelos próprios admiradores de poesia. O ordinário, o sujo, o doentio anti-ergonômico e o convulsivamente irado do dia a dia do poeta e da poesia são trocados pelo fetiche do sentido oculto e da identidade rara, do limpo e delicado, nesse agora utopos, a poesia.

Essa pode ser uma boa chave de leitura para a novela Em Havana, de Cesar Aira, publicada em Florianópolis pela Cultura e Barbárie Editora, traduzida por Byron Vélez Escallón e Joaquín Correa.

Em meio a um cenário de pobreza e sujeira, decadentismo puro, apontada por vizinhos em disparates-quaisquer-bem-intencionados, decorada, em sua recepção, por jovens negros que dormem num banco às 10 da manhã, a Casa Museu do escritor Lezama Lima é, no início do livro, visitada por esse narrador algo dândi.

Sua visita oscila entre o nojo, o amor ao ordinário, o ensaístico inspirado e a pura enumeração de exterioridades, chaves que se tornam, todas, pura literatura.

A narrativa, se é que se pode chamar assim um texto que se encaixa em vários gêneros de prosa, é, por essa dúvida mesma, bastante contemporânea. Ela nos faz emergir no contemporâneo.

Ora voyeur culto, ora o mais comum dos chatos, este narrador encarna, sobretudo, a aceitação de olhar o real pelas mais diversas lentes possíveis. A edição é belíssima, trazida pelas mãos (literalmente) da Cultura e Barbárie.

Trecho (muito bonito):

“As fotos enganam nos tamanhos, e nessas visitas aos lugares reais sempre se trata de tamanhos – a gente vai até eles justamente porque os veio habitando na imaginação há muitos anos, no sistema de tamanhos relativos com que opera a fantasia, e a peregrinação se faz quase que somente para viver o tamanho absoluto; mas uma vez lá, as duas classes de tamanhos, os relativos e os absolutos, se misturam. Também se mistura o antes e o depois da visita propriamente dita, que costuma ser breve. No meu caso, brevíssima. Quanto tempo fiquei na casa [museu] de Lezama? Cinco minutos, seis? Sempre me proponho a tomar meu tempo, anotar o minuto da entrada e o da saída, e sempre esqueço, mas estou certo de que me comporto como o relâmpago, devo bater recordes. Vou em todos os museus de todas as cidades que visito, e por grande que seja meu interesse nos tesouros que contêm os atravesso como uma flecha. Não sei se é impaciência, estupidez, derrotismo, o certo é que me dá uma pressa intransigente, e num abrir e fechar de olhos estou do lado de fora. E, entretanto, vejo tudo, paro um segundo, ou meio segundo, diante de cada quadro, pensando ‘já deve ter dado tempo para lembrá-lo’, e é claro que depois esqueço de tudo.” (César Aira – Em Havana ps.8-9.)

 

Precisamos (mais) de mulheres (mais) fortes. E homens o que?

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Galera que cultua Frida Kahlo e espiritualidade manja que são duas coisas bem difíceis de fazer ao mesmo tempo né? Mais claro: o uso de imagens de culto é bastante recorrente nas religiões e um dos principais motes da pintura da Frida é caricaturizar agressivamente essas imagens. Senão analisemos o quadro (e não “imagem”) em anexo.

Bom, que Kahlo tenha se tornado um ícone é claro pra todos e todas. Que teve uma vida no limite do suportável também. Que estamos dentro de uma civilização inteira voltada ao patriarcalismo e displicente da figura da mulher idem. Agora, uma pergunta, a qual sempre parece fugir dos comentários habituais (claramente tão pouco profundos em seus pactos emancipatórios quanto encontros de fofoca): qual o sentido da arte de Frida Kahlo?

Arrisco aqui um caminho: destruir o culto hipócrita às imagens. Tipo aquela imagem, por exemplo da deusa Shiva, que atrai seu respeito muito mais do que “o porteiro do seu prédio”. Claro, o sentido é claro: o porteiro é real, ora bolas, e, cá entre nós, o real é muito mais difícil de lidar do que o religioso.

Uma Kahlo com rosto imenso, extremamente caricatural, aparece chupando os seios de uma ama-deusa negra. O rosto da ama é mais preto do que a morte. De um seio vaza leite. Mas Frida chupa o outro: à procura de flores. Existe uma única folha brilhante atrás da cabeça de Frida. Seria um convite para o qual, em sua inocência, ela não dá atenção ou um inconsciente. Chove. Estamos no meio do mato. Olhamos e somos olhados para e por quem? Para e pela a fragilidade humana, provavelmente.

Como tirar a miséria da arte e manter a vida? Arrisco outro palpite: que assumamos que superficialidades, amor à imagem, entretenimento e dinheiro, tudo isso e mais é bom; além de Interioridades. Caso contrário, seremos inevitavelmente hipócritas e, nessa hipocrisia enciumada de grandezas, aí sim, machistas e preconceituosos.

Homem que é homem abraça sua androgenia teatral e natural

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O mau-gosto é sempre antecipado, raramente racional. O exercício de aceitar e endossar é visto como um gesto trans-estético, ou seja, a ética invade a arte, até em seus mínimos detalhes.

Quando um artista se reinventa do zero como é o caso do Daniel Johns, antes de entender os conservadores da arte (principalmente roqueiros rebeldes) gostam e gozam com o não entender: pegam o óbvio e, longe de conseguirem ler o que acontece e apresentar o lido de maneira esteticamente justa, fogem do mau-gosto, em geral imersos em preconceitos (aqui de gênero), e fazem uma miséria de leitura da arte –sim, a tal da arte existe, não?

Este vídeo com a apresentação ao vivo de Preach (umas das raras perfomances do espetacular álbum Talk) é um caso bastante emblemático disso. Os desentendedores, os aparentemente inteligentes jovens amantes da arte, os destruidores, quase inocentemente presos ao caráter de impressão da arte (que nunca pensa e nunca consegue ler a obra como puramente desafiadora, antes sempre tendo que a ler e ter como amigável) dizem: “o carinha do Silverchair está se vestindo como um rapper branco rico, olha que ridículo, com correntes, e tudo e agora está bombado; esta música é bem ruizinha, ficando em três acordes; não gostei dos efeitos da voz, hahaha”. E…Fim.
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Proponho uma outra leitura da performance em questão: Daniel é bastante inteligente e está conscientemente zombando do figurino rapper, aliando às vestes associadas ao tipo másculo o seu jeito andrógeno e bissexual, aqui pendendo para o homossexo, mas com bastante músculos.

Sua letra é agressivamente “sádica”, em um primeiro sentido, por falar do tema que é bastante difícil de ver associado aos hip-hopers, sempre enturmadinhos em sua literatura de criaturas da noite e do crime, penal ou estético: “eu” branco, bonito, solitário, é que “sou uma sombra”; ou “eu poderia correr rua alta abaixo/ mas isso seria uma mentira” ao menos pra ele, que afirma: “agora eu prego aos solitários.”

Inverte-se, dessa maneira, a crítica mais imediata e óbvia e o artista emerge, afirmando-se como corajoso e de não-óbvias coragens. Diria até que esta performance tem algo de dadá, em todos os abraços ao ridículo de várias das gestualidades, como nos trejeitos encenados na última menção ao verso “I could run down the high street”.

A acusação de pobreza musical da canção também é vítima da aparência, pra não dizer de preconceito ante a linguagem pop. Por meio de três acordes, Daniel conseguiu criar uma melodia inventiva, cheia de variações ousadas, com belíssimos timbres e floreios vocais, tendo como resultado uma estética eminentemente contemporânea (apesar de, dou meu braço a torcer, mais bem apresentada na versão original do álbum, dado seus apetrechos eletrônicos).

Esta versão ao vivo é bastante crua, mas igualmente bela. Volto a ressaltar a coragem desse artista que, sinceramente, em face ao menos da maior parte dos cantores brasileiros contemporâneos com pendor andrógeno (moda dos dias) é muito mais talentoso musicalmente, mais independente, mais silencioso e mesmo de literatura mais rica. Isso é só uma generalização, curto alguns dos nomes da nossa música atual, mas fica aí registrado o meu amor ao polemismo lúcido (aqui caberiam risos).

O artista deve conseguir andar sozinho e não somente em bando. Deve ter talento técnico individual – se quiser chamar atenção. Deve também poder pregar aos solitários e não apenas convocar para as facilidades do protesto sem forma. (Com forma é bem legal.)

Publicando a realidade na internet

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Ou: desconfiando do texto que agrada.

Não adianta conversar, nem com boa parte dos “esclarecidos”: vamos sair da internet?, isso é só um post. Nesta foto em que junto o tema da infância com humor negro (minha foto de perfil na semana do dia das crianças, em que apareço novinho no mundo fazendo coro aos slogans do Trainspotting) obviamente não há vontade alguma de provocar mal estar nos meus concidadãos. Mas também quando escrevo “existem feminismos e feminismos” na minha linha do tempo, apontando para um evidente caso de uso distorcido daquela ideologia, a leitura que pega a frase em separado e afirma (como foi o caso) que com isso estou dando margem à interpretação machista e “prestando um desserviço ao movimento”, soa ameaçadora quando lembramos que estamos apenas em um perfil pessoal de rede social.

Não me julgava tão poderoso. Minha foto do perfil, hesito em a avaliar, sim, é só uma foto exposta numa realidade virtual e não um livro-tratado sobre técnicas de comer criancinhas, nem uma convocação para a marcha dos neotarados. E a acusação sombria dos nossos tempos, repetida a todo momento, é esta: você pode estar enganado. Daí, dessa requisição de constante autoexame de aparências, provavelmente se origina o vazio de ações ousadas, de valorização da literatura, de arte violenta e forte usando sua liberdade e seu poder de ambiguidade (trágica). (A mídia ninja que me desculpe, mas sinto falta de crônicas mais fortes literariamente, textos explorando a riqueza da palavra, redigidos por um autor culto, urbano, violento e lírico na linhagem Gore Vidal… ou Nelson Rodrigues.)

Os aliados (esses que nem ocupam as ruas, nem fazem arte nesses nossos dias, provando que sem crise é mais fácil protestar) devem ser criticados — como exercício constante. Mas não: a esquerda nasceu com o ego dos já redimidos. Devemos realizar também a ação simbólica violenta. Nossa incapacidade de solidificar um esclarecimento nacional nos mostra algo muito forte sobre a história da nossa inteligência, estando muito bem expressa no sentimentalismo que, um dia após uma manchete de grande ato, já amolece na emoção de dever cumprido. O dia a dia dos nossos trabalhadores deve ser tão árduo (e eu sei que é) que impossibilita a atividade mental pós-expediente: só isso pode justificar o amor ao Facebook e o horror ao texto aprofundado. É por isso que qualquer post descuidado pode ajudar a fazer vir à tona o nosso nacionalmente amado complexo de bicho papão, aquele que emerge ao ver na sua frente a imagem, a mera imagem (essa portadora de tolos conteúdos), que não quer ver.

(“No curso da História, os textos explicavam as imagens, desmitizavam-nas. Doravante, as imagens ilustram os textos, remitizando-os” — Vilém Flusser.)

Sim, a internet serve também como meio de comunicação e também de notícias e textos realmente interessantes, mas eu não sei desde quando este meio se tornou o essencial, o provável maior ocupador de tempo de uma improvável formação, nem desde quando passamos a acreditar que cada um de nós porta a competência (ou se é a mera vivência de uma fantasia) de ser jornalista e editor de notícias, divulgadas em um perfil privado, que são medium para o novo mundo, este que nunca está pra tomar o seu devido lugar neste mundo. Esta suposição de capacidade, completamente irreal, precisaria ter como base sabermos a hora de ler notícias (verdadeiras) e a hora em que devemos ler um texto realmente profundo que vai adicionar riqueza ao nosso léxico e poder interpretativo. Isso, que também é ação, não é o que acontece. No máximo temos o bom gosto de ora postar protestos carregados, ora passar adiante a notícia de algum evento de arte cult.

O melhor, acho, é assumirmos: a internet serve para entretenimento. Formação ou informação é aquilo que deveríamos estar fazendo fora dela: em leituras, escritos, diálogos, cursos, trocas, exercícios com dinâmicas realmente escolhidas para desenvolver ideias, etc Se conseguimos realizar isso pela internet (ou sobrando tempo para nela navegarmos), excelente, mas suspeito que a maioria de nós não consegue e que o real papel deste milagre revolucionário seja o de cumprir o personagem simultâneo e bipolar de muro das lamentações e salvador de edens do imaginário — compensação sublimatória para o sentimento de impotência.

O mundo também é tato e cheiro: diria até que hoje nossas experiências privilegiadas podem neles encontrar melhores conceitos do que na visão e na audição. Mas, tão imersos estamos na fila para atingir os bens imaginários que todos querem, que deixamos de saber usar o corpo com o mais natural controle. Disciplina se tornou palavra negativa, aquilo que, a despeito das aparências, sugere aos neurônios sacrifício e velada inconformidade. Deveria ser o contrário: disciplina como o caminho para tornar natural e fácil o máximo aproveitamento de uma capacidade. Eis porque nossa civilização é ignorante e geradora de ignorância em série, sabem deus e diabo até quando: criamos o hábito disciplinado de tirarmos o nosso mínimo com o maior esforço, o que nos faz crer não na vida da vida que nos está próxima, mas na vida da imagem.

Somos uma sociedade tão perniciosa que, no momento mais próprio de doação, não damos parabéns a alguém. Nós damos parabéns, esperando um obrigado pelos parabéns, que nada mais são do que os parabéns por termos dado parabéns. Talvez a atitude mais revolucionária e afirmativa seja a ironia, além da ação silenciosa e concentrada. Aquela muito bem satirizada nesta que é minha frase preferida do momento, tirada de uma peça do Ibsen, As colunas da sociedade:

“‘O que a senhora fará em sua sociedade, srta. Hessel?, perguntou Rörlund. ‘Deixarei entrar o ar puro, pastor’.”

 

Para ler as palavras

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Ou: memórias presentes de um bovarista masculino

Todo texto é para os corajosos em enfrentar a palavra. Os ingênuos, não-corajosos (e eu os entendo porque a educação voltada a isso em nossa era é aterrorizante) prendem-se, ao ler palavras, na perspectiva da representação. Nesta, palavras estão sempre se referindo a duros objetos reais como, por exemplo, o leitor mesmo. Aqueles signos ali escritos são excitantes para que, “inevitavelmente”, se julgue os valores, as memórias e a maneira de interpretar o mundo daquele que, na experiência privada da leitura, as decifra. Não é uma perspectiva exata e, pra ser sincero, esta é a definição do próprio leitor ingênuo: aquele que, dada sua prática de leitura equivocada, faz com que o texto se dirija, em um seu julgamento, a objetos pesados e, de maneira equivocada, reais.

Aqui, vem a voz do leitor não-praticante e diz: “mas como um texto não vai se referir à realidade?” Não, não é isso o que se diz nestas linhas. Pra começar porque é impossível fugir à realidade, mesmo que um texto tente. Pegue o texto mais fabuloso, um texto que fale da vida em outro planeta e, se escrito num idioma terráqueo, ele estará dentríssimo, como qualquer outro, desta realidade. Se será julgado como bom ou não, aí sim podemos discutir.

O texto não se dirige a objetos reais no sentido de sua própria impossibilidade técnica: escrevo aqui sua pêra e não estou trazendo a sua pêra da sua realidade para outra, questionando assim sua propriedade. Entenda-se a loucura dos seres humanos: a palavra pra nós é tão forte que falar sobre algo que é nosso é visto como uma afronta, em hipótese, ao nosso patrimônio, material e espiritual, particular. Não vou falar da sua pêra, muito menos da sua banana ou dos seus melões, fique tranquilo leitor.

Como enfrentar a escrita? Ora, aqui evidentemente estou falando da escrita literária. Acabei de ler que o romance de Flaubert, Madame Bovary, foi julgado na França (ainda antes de sua edição em livro, dado que foi publicado em uma revista) com a acusação se referindo não ao autor ou ao narrador, mas à personagem, como se ela é que estivesse sendo julgada. Claro, dirá o nosso leitor: as pessoas tomam como exemplos as condutas que veem narradas na sua frente e as julgam como bons ou maus exemplos. Em plena era de abundância de sites pornôs, entretanto, fica bem difícil, cá entre nós, pensar a coerência das opiniões dos bons costumes.

Um resumo aos atentos: a moral burguesa é sempre dupla. Os conceitos de certo ou errado adaptam os casos concretos e não o contrário. Pois a situação é então bem clara: o escritor já buscou na ficção um lugar para não falar da pêra de ninguém. Mas narra uma história forte em que a “heroína” trai totalmente a moral e os bons costumes, como são explicitamente declarados , do seu meio. É possível o defender com o argumento de que está se referindo a algo que acontece, cotidianamente, e que apenas superficialmente pode ser mascarado pela sociedade. Mas há ainda mais do que isso: o texto tem consciência e supõe que o leitor seja inteligente para não tomar como exemplo aquilo que seria apenas um modo, bastante pobre, de tipo de escritura.

Não estamos mais numa vila, meus caros moralistas. A modernidade já hiperorganizou lugares e hiperchocou valores tem algum tempo. Supor que uma nação possa escolher um único deus pra acreditar, por exemplo, com tantas culturas se encontrando, criando e recriando, é ingênuo ao nível do bizarro. Claro, somos uma civilização de ingênuos. Os não-ingênuos aprendem a ler: e isto só poderá lhes dar estabilidade, saúde e, eu diria, verdade com um altíssimo custo.

Ainda a maioria das pessoas, em qualquer canto, choca-se ao ver algo estranho ser trazido a tona. O secretismo de dores, valores chocantes e realidades não-adaptadas talvez seja o supremo valor universal dessa sociedade de hipócritas. Para ver mais de perto um exemplo citado, é bastante impossível imaginar que a maioria dos pais religiosos não se masturbe diariamente vendo vídeos pornôs na internet. Esta falsidade continua indo longe. Todos somos mais fanfarrões quanto mais sérias são nossas feições. Uma terapia é rir silenciosamente do riso que silenciosamente se esgueira e esconde.

A questão do suicídio, por exemplo, preferida para ser esquecida conscientemente, é emblemática. A personagem de Flaubert se mata. Mas, vejam!, como se mata na literatura o texto continua vivo. É a própria definição de pecado! O senso comum vê nessa proeza da literatura algo como alguém propondo constantemente, com seu exemplo, que nos matemos todos. Como se Bovary se matasse a cada dia, a cada segundo, enquanto este texto imoral e imortal da literatura sobreviver. Assim os ingênuos montam sua ideologia e lotam novas igrejas que hoje funcionam, sintomaticamente, em salas comerciais. Custa caro pagar surdos ouvidos.

Entende-se melhor agora o que se quis dizer no primeiro parágrafo, suponho. A literatura traz à tona, sim, mas traz à tona espelhos. Se dói é porque nela você se vê. Se você imagina um paraíso na Terra em que não há ou deve haver dor e temor, parabéns, eis a razão da sua dor e temor (os meus tem outras razões, mais naturais). Como não haver temor num mundo onde culturas se chocam e corpos se arrebentam o tempo inteiro? Você acha que os acidentes de carro são escolhidos por deus? Se sim, é deus também, nesse caso, quem escolherá a quantidade de destruição que este mundo aguenta e, por saber o que está fazendo, é ele também que sabe que, apesar do crescimento exponencial de nosso apetite por destruição, o mundo aguenta mais, muito mais.

O bom-leitor deve se livrar de pensar na representação de objetos reais na atividade de sua leitura. Num sentido bem específico: a literatura, na forma como nossa cultura heroicamente desenvolveu, não existe pra julgar a consciência de ninguém e sim para fazer um alguém deambular, amorosa e calmamente, pela escrita. Pois que depois de andarmos longamente em círculos, algo muda: é nossa maturação que se faz sentir. Quão sábio é este cronista! Bom, confesso que não: por mais que estas sejam descobertas antigas, só hoje elas começam a se solidificar na minha vida em particular.

A leitura unicamente norteada por objetos concretos esbarra a cada sentença num: “será que eu sou assim? será que este autor está certo? será que vou gostar da ideologia representada aqui?” Perguntas ingênuas, completamente desconhecedoras do ser da literatura e que todos nos deixamos fazer (sim, o escritor inclusive) por falta de prática da leitura. O conselho base é: aprender a reconhecer um bom texto. Em época de internet é difícil. Acredito que acabamos lendo mais, mas de modo algum com mais qualidade (talvez seja o inverso). Procuramos o que queremos ler, quando muito, e o texto lido serve para afirmar nosso caráter, gerar a sublimação de nossos fantasmas, quando muito, no Facebook.

O bom texto? É aquele que nunca se prende ao modelo da representação e raramente vai se prender num modo de enunciado de acordo com um único gênero. Explico essa última parte: o bom texto oscila entre o científico, o poético, o lógico, o prosaico, a fofoca, a ironia, a inversão irônica, a demonstração, a descrição, a piedade, a crueldade, o humor ingênuo, etc, etc É como se o texto fosse, então, tudo menos a coerência exigida pelo senso comum, mas isto em nome de ser texto-mesmo, pura deambulação pelos limites do mundo, na experiência possível feita rica e gratuita linguagem.

Menos amor, por favor!

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“A arte não reproduz o que vemos, ela nos faz ver.” (Paul Klee)

Então o artista ou ideólogo românticos (sofridos e humanistas) me vêm mais uma vez com essa: “mais amor, por favor”. Eu digo que não. Soa já e muito como um protesto classe média no shopping. Arrisco até adivinhar que esse chavão contemporâneo logo estará estampado em almofadas. Disse no outro texto e repito: o que esses dias nos mostram é que com crise é mais difícil protestar. E isso não quer dizer a invalidade do protesto, pelo contrário: quer dizer que as formas são sempre dissolvidas, incorporadas e precisam se reinventar. Quem comeu a forma? Foi o sistema? Não, eu garanto. Foi o tempo natural de movimentos de resistência se fortificarem e recriarem. Menos amor, por favor!

São outros caminhos que não o dessa procura por ultra-sensibilizar nossos contemporâneos — que na verdade são um Outro, um Diferente Imaginado. Até porque o que está em jogo aí não é a sensibilização e sim a culpabilização. Vejo um rostinho de criança atribuindo a culpa inteiramente ao outro, que aponta um fuzil, dizendo: “mais amor, por favor”. Pergunto-me se a criança vê o fuzil e se igualmente tem estrutura para o aceitar. Esperar mais amor é esperar o paraíso não-realizado, ou seja,é cair no estereótipo do ansioso, que é justamente aquele criado por essa sociedade absolutamente criticável. Saímos como espécies de neo-hippies burgueses bem estabelecidos. Dizemos mais amor dos andares superiores de um edifício confortável numa capital. Ou na praia, acreditando que não cuidar da alimentação é o erro dos nossos semelhantes. Acho que o buraco é bem, bem mais embaixo. Precisamos dar mais voltas, com as palavras e os pensamentos.

Não estamos nem perto de “mais amor”, nem como pequeno avanço, portanto essa intervenção é completamente irreal. “Mais amor” parece querer dizer, apenas, “eu é que tenho razão” (imagine o outro te ouvindo). E acho que a palavra (o verbo) deve servir para outra coisa que não ser a mera bandeira que representa mundos imaginários. Falei “nem como pequeno avanço” porque acho que o nosso tempo de conforto gerado por pílulas de placebo está acabando. Aonde sentimos um pouco mais de mais amor? Depois de uma peça acusatória, seguida de um show andrógeno, num teatro em ruínas, com cerveja à farta e póstumas boas trepadas? Perdão, mas é muito pouco classe média esclarecida. Agora, aqui, não quero criticar hábitos boêmios neutralizadores, quero criticar a nossa formação de discurso. Afirmo que o desempenho literário dessas palavras “mais amor, por favor” me soa como um quadro do Romero Britto.

Claro esteja: aqui este chavão é tomado apenas como simbólico. O que está por trás desta afirmação é muito maior do que a mera ocorrência pontual dela mesma. É o que acontece nas redes sociais diariamente, em nossos posts de esclarecimento. Mais uma vez, somos vítimas do modelo da representação, que critiquei no outro texto. O humanista se representa como o bom, como o capaz de entender a ação do amor e aceitar a alteridade e cai no vício da própria linguagem, que resulta em subsumir o outro, por meio da imposição de seu código. É como se parecesse: “sou um classe média esclarecido e reclamo do açougueiro goiano, de maneiras não-delicadas, e do empresário workaholic, que desconhece o pensamento sociológico, sendo estes evidentemente os responsáveis pelo mal-estar em que estamos imersos”. Prestem atenção: eu sou o consciente, o outro é o primitivo. Nada mais modelo ocidental, no pior sentido: preciso acusar alguém. Nada mais arcaico, também no pior sentido: acreditar em totalidades (acadêmicos esquerdistas x acomodados ricos) para erguer um bem-estar de consciência “coletiva” (os seus amiguinhos inteligentes).

Eu acreditaria num hippie que dissesse “mais violência, por favor” e num magnata de nome que dissesse “mais amor”. Mas, como a graça da brincadeira é projetar no mandamento o que gostaríamos de ver no outro e nos falta a nós mesmos, resultamos inertes nessas sociedades de egoístas acomodados (os humanistas) e pacifistas desesperados (os açougueiros alta classe). Não, não estou defendendo estes. Mas, acaso você diria para o feio “mais beleza, por favor?” Não. É inútil desejar mais beleza para alguém que deve desconstruir os padrões de beleza (ou do amor) a que está submetido. A classe média conservadora está bem convencida que ama. Seu protesto, despreparado e separado por um abismo que ajudamos a criar, é que é cheio de ódio. “Mais amor” é como mascar um chiclete no meio de uma guerra, querendo ganhar a guerra. É uma cena bastante romântica e não-engajada, eu diria.

Toda essa rede de perfis de Facebook de humanistas que emitem opiniões sociológicas é engraçada. “Mas, Diogo, é melhor que ser de direita.” Acho que não. O melhor não é o menos pior, e é o menos pior que acumula curtidas. Essa ideologia de “formadores de opiniões” é também ingênua. Não devemos formar, como pais da bondade, filhos-da-verdade-pronta. Escrevo num quadro imaginário “sou humanista”. E daí? Acho que muito melhor caminho é criar seres pensantes, no lugar desses seres prontos. Criarmos pessoas, sem divisões acomodantes. Quem sabe onde quer chegar, desiste de pensar. Acomoda-se com a imagem de um país imaginário onde acha que já está ou deveria estar, por direito natural, país cuja imagem cai em ruínas por conta da ação não-consciente de outros. Não existe direito natural, caríssimos. O país que você está é este, do desamor. Pise no chão. “Mais ódio”, dissenso, “por favor!” Amor é consenso e eu não concordo.