Um pouco sobre o A corda em si

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O duo A corda em si foi uma das paixões musicais que criei em Florianópolis, minha cidade natal. Quando lançaram seu primeiro álbum O som do vazio escrevi o texto abaixo que foi incluído como faixa interativa do referido trabalho. Agora que lançam seu novo trabalho, Sinfonia Azul, preparo palavras novas e, enquanto isso, trago mais uma vez aqui as antigas.

Apesar de não ser músico nem nunca ter observado de perto o trabalho de intérpretes, posso intuir os dilemas que marcam a tarefa de selecionar um repertório para um show ou disco. Há evidentemente idéias prévias que podem facilitar esta difícil – talvez a mais essencial – etapa da construção de um projeto.

Uma delas é muito bem conhecida pelos consumidores de música dos dias de hoje: chovem álbuns de homenagem a compositores, intérpretes e discos consagrados, onde a escolha das canções gira em torno de um conceito pra quem vê de fora bastante determinado e de fácil reconhecimento. A cantora Olívia Byington, por exemplo, fez duas belíssimas homenagens, uma a Aracy de Almeida e outra a Elizeth Cardoso, em seus discos A dama do encantado eCanção do amor demais.

Outro caminho vem da escolha de montar um repertório de acordo com uma proposta um pouco mais aberta, voltada para um gênero ou campo de pesquisa, como no exemplo do novo disco do grupo Quatro a Zero intitulado Memórias do choro paulista: a seleção de músicas foi feita a partir de uma pesquisa de grandes chorões paulistas, muitos deles desconhecidos até dos praticantes do gênero.

Ambas as posturas determinam de antemão a direção do repertório, mesmo que no fundo pareçam ser apenas uma positiva desculpa para que a música simplesmente aconteça.

O caso do duo A corda em si é igual só que diferente: fazendo uma simples reunião de canções, o “conceito” ou unidade do trabalho não é dado de antemão pelo repertório ou por qualquer outro aspecto do seu primeiro trabalho, O som do vazio. Muito pelo contrário: a medida que vamos nos aproximando, a unidade de sua proposta, tão comumente explicitada logo de saída, parece vir de uma quase provocação aos ouvintes.

Eis o ponto: mesmo que predominem canções bastante conhecidas em sua seleção, mesmo que haja uma clara preocupação pela singeleza como resultado final, o duo surpreende e desafia em praticamente todas as nuances de seu projeto.
Não que o caminho para a intimidade com estes músicos seja longo. Para quem se dispõe a ir a um ou dois dos seus shows logo se torna fácil constatar: recusando muitos lugares-comuns, cedo percebemos que há maturidade e ousadia, enormes e exemplares, percorrendo, sutilmente, toda a proposta de Mateus Costa e Fernanda Rosa.

De início nos deparamos com isto: o primeiro trabalho de um duo de baixo acústico e voz, com arranjos lapidados, de excelente nível técnico, baseado num repertório simples, de uma simples coleção de canções populares brasileiras.

Entretanto, convivendo com estes dois músicos enquanto platéia, vamos percebendo o enorme carinho e dispêndio de energia com que foi pensado todo o projeto: não por acaso o seu título é este, O som do vazio. É ele que funciona como um convite inocente a nos aproximarmos mais e mais deste trabalho, ajustando o nosso silêncio de público ao silêncio destes apenas dois músicos que, com malícia, nunca escancaram os seus segredos.

De perto vamos vendo que todas aquelas grandes virtudes que havíamos enxergado num primeiro contato é apenas o começo da história. A aparência de total delicadeza e meiguice do casal Mateus e Fernanda também é ilusória. Depois da simplicidade e do “vazio”, tudo o que há pra se enxergar é ousadia consciente, pulso firme, imensidão e mesmo agressividade em todas as doze versões de canções do projeto.
A primeira vez que os vi senti isto com evidência em uma música: a cançãoBéradêro de Chico César. Antes disso não conhecia esta canção já por si simples e grandiosa. Nela o A corda em si quase explicita tudo o que sabe deixar velado: no canto de garganta de Fê Rosa e no acompanhamento de imagens suspensivas e cortantes de Mateus, o ouvinte, que ingenuamente havia se deliciado comChovendo na roseira, é incentivado a se refamiliarizar com suas próprias expectativas.

Não, o show do A corda em si não se torna de uma hora pra outra um espetáculo carregado, de emoções sustenidas: sem que soubéssemos, desde o começo tanto catarse quanto doçura se equilibravam, como que nas sombras do som. Apenas agora temos isto talvez mais explicitado.

A escolha da ordem das músicas no programa do show parece ressaltar esta procura. Um exemplo: depois de Jóia de Caetano Veloso (uma espécie de mantra sobre um poema, em versão bastante bem abordada pelo arranjo francamente agressivo) segue-se a quase melodramática Valsinha de Chico e Vinícius.
Há, no mesmo programa, também uma justificação técnica para o nome do trabalho, O som do vazio: desafiando ainda mais os imagináveis riscos da formação baixo e voz, o A corda em si.

revela não fazer questão do preenchimento nos arranjos. Não é preciso ser músico para adivinhar que tal concepção pode ser vista como uma heresia diante do comportamento comum dos arranjadores.

Entre tanta informação, esse texto volta a ressaltar: este papo de não-preenchimento, de simplicidade, de sorrisos pra cá e pra lá, de baixo acústico e voz feminina, de Kid Cavaquinho e lá vai São Francisco é tudo parte de uma grande cilada em que teimam em cair os distraídos.

Este texto é um alerta, uma acusação, talvez a revelação de um segredo ou mesmo um estraga prazeres: não nos deixemos enganar por este simpático casal de músicos – em breve disseminando suas armadilhas através do primeiro cd. Não contentes em serem plenos artistas em pleno debut, ambos parecem mesmo fazer questão de nos ferir com tanta intensidade tirada do aparentemente tão pouco, da cifra mínima da música, do som de todo vazio.

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