Eddie Vedder – Into the wild

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Posso definir o álbum Into the wild (2007) como uma obra da mais alta importância na trajetória de Eddie Vedder, mais conhecido como o vocalista da banda Pearl Jam. Mesmo estando há 24 anos em atividade em uma carreira invejavelmente sólida, cabe ainda repetir a informação de que não foram e são poucos os críticos violentos do músico e sua banda, principalmente no que toca à maneira como envelheceram e/ou se colocaram de canto, no auge, ante os holofotes do show business.

Difícil discutir com Ten, álbum que pode ser facilmente colocado ao lado dos mais bem sucedidos, grandiosos, mais espontâneos e mais inexplicáveis álbuns de estreia da história do rock. Agora, o que se seguiu na carreira da banda é o profundo mistério gerado pela persistência da construção de sua discografia sem interrupções com tanto a ausência de sucessos de massa (o último grande hit foi o cover despretensioso de Last Kiss, melhor posição conquistada pela banda no Billboard Hot 100 em toda sua história) quanto de grande repercussão crítica.

Quanto à provável saída pela via do status de banda cult, o problema continua. E a razão é clara: da desconfiança ainda condescendente com os álbuns do Pearl Jam lançados na década do seu nascimento à negligência convicta diante da produção da segunda década (da terceira só temos um único rebento, Lightning Bolt), os críticos e apreciadores refinados do pop nunca tiveram porque comparar Ed Vedder a um Robert Smith nos termos do que poderíamos chamar de campeonato pela encarnação universal do cool.

Afinal, o que vai querer um colecionador de música descolado, ávido por renovar seu guarda roupa de música a cada dia com novos charmes, com um troglodita bondoso, um berrão que tanto cria quanto cospe no conceito artístico de seu trabalho, o frontman de uma banda que registrou em seus álbuns um espontâneo comprometimento muito pouco influenciado pela ideia de levar a música “mais adiante” ou de cultuar o contemporâneo rebocado pela diversão suavemente engajada? Os álbuns do Pearl Jam soam esteticamente tão concêntricos (definição entusiasta) que é como se pudessem ser tomados por um não-esforço resultado de algum esforço, um ensimesmamento decidido e em nada ou quase nada preocupado com a ciência do apelo.

É como se tudo o que pudesse haver de leve e atraente no trabalho do grupo fosse feito tão na sombra, tão cruamente, tão, eu diria, “desleixadamente” que seria num primeiro momento muito mais fácil tachar de cool a banda de tecno-brega amador do seu vizinho hipster churrasqueiro do que um dos álbuns da maturidade da banda de Seattle. Agora, diante disso, eis um pequeno ponto mágico nos fatos que narram a história do aparentemente hiper-humilde e hiper-desconectado Eddie Vedder: com Into the wild tudo o que estava à sombra se sacudiu um pouco, pois é muito fácil gostar desta obra.

Para quem sabe usar a razão e a abertura (somados) na audição e esquecer um pouco o charme niilista (estandarte de toda nossa era, inclusive meu) torna-se muito difícil o derrubar criticamente. Seu conceito e força são tão claros e simples que é como se dissessem, magicamente: “Gravar um álbum? Gravar um álbum sincero? É e sempre foi uma das coisas mais fáceis do mundo.” O fato de ser um álbum de trilha sonora e do filme a que se dirige, bom, só aumentaria sua discrição e também sua força.

Pois não é que este músico completamente desajeitado, sem técnica nem finesse, foi capaz de criar 90% sozinho e em velocidade instantânea uma obra que assombra pela crueza, facilidade, ausência de rodeios, ausência de ego, cool, de uma diversidade puramente espontânea, uma obra que consegue dizer repetidamente alma de uma maneira, perdão pelo duplo sentido, natural? Feito para indie amar.

A maneira como o álbum se casa com o filme e a história em que se baseia é outra das coisas mais assombrosas. É como se Vedder erguesse uma pena para atingir o grau de densidade exigido pela dramaticidade. É como se essa dramaticidade sempre tivesse sido a casa, um estado familiar do artista e também, por uma felicíssima coincidência, a sua própria obra. Sean Penn, diretor do filme, disse ser uma pessoa mais feliz por não ter perdido Eddie para a natureza. Afirmou ter sido perseguido, durante as filmagens, por essa voz que seria a sua preferida para expressar o coração dos Estados Unidos.if000228

E, ainda, ao contrário do que um comentador, após o transe destas palavras poderia dizer, a energia final deste álbum não é a de uma histeria desanimada ou um ranço sem fundo e sexo, mas sim o de um sim à vida tão puro, enérgico e cândido que você é capaz de ver por meio deste álbum quê contato com a verdade permeava o trabalho dos maiores e mais mágicos expoentes do folk em sua fase clássica.

O que chama a atenção no álbum para que aqui eu o possa chamar de um feito na carreira do seu autor é justamente essa good vibration em sinceridade e com o peso do trágico – este que, claro esteja, também está num Bob Marley. Sim, este autor está adjetivando um tanto, mas porque é confesso admirador da obra em pauta. Trata-se, que fique claro, de um daqueles discos que você, no caso eu, considera obra-prima, se ainda não se fizeram percebidas as razões do desbunde.

Acontece que compreender a persona de Ed Vedder é, falando agora como crítico, uma descoberta muito gratificante para um amante de música popular e rock. Muita coisa se explica historicamente. Vedder é, como ninguém, “aquele que não era o Kurt Cobain”. E ser o não ser da última grande sumidade genial do universo da música pop (para o mainstream, mas também para o terceiro mundo) significa alguma coisa, eu acredito, especialmente para um artista que está há tanto e tão constantemente na ativa. Certamente “a sombra de Cobain” andou por alguns lugares neste tempo e não necessariamente o tempo inteiro como um poser de Seattle ou o membro de uma banda que até pouco tempo parecia ter retrocedido no tempo. Apenas parecia, na minha opinião.

Não ter virado estrela também no sentido de Guimarães Rosa (leia-se: não ter morrido como um anjo) como ocorreu com Cobain, Buckley e um pouco mais tarde Staley, nem ter descarrilado para várias direções como Cornell, muito menos ter virado um falastrão poser profissional como Corgan, muito pelo contrário, ter aparentemente se encolhido em seu canto roots e brigado de lá, com um pé no mainstream e outro nas águas, só nos deixa com a opção: existe um universo próprio chamado Ed Vedder. E eu diria que sua persona é a de um amante da natureza e da humanidade em um sentido semelhante ao contido na força materialista de um poema de Walt Whitman. Seu sim à vida é dado de saída e a dor é parte do sentido histórico de afirmação do seu sim.

Há sempre uma ética da simplicidade a nortear os passos da expressão estética, como se na oferta da obra houvesse também um pedido por delicadeza e generosidade, junto à expressão do peso, da contestação, do desperdício e mesmo do gozo. O crítico indie dirá que cometo aqui um sacrilégio puramente ao me ver afirmar que Eddie e sua música merecem atenção. O fã enérgico e emocionado defenderá que é um absurdo a banda não ter maior reconhecimento crítico e também não ter virado tão clássica quanto um Nirvana ou um Metallica. Fico com nenhuma das duas opções, pois prefiro este silêncio, dando razão aqueles que fazem história de maneira despretensiosa, intensa, flertando de maneira diabólica e infantil com o rabo de foguete do desespero para ser bem sucedido. E Vedder e o Pearl Jam podem dar aula sobre isso.

As virtudes artísticas de Vedder e sua banda são inúmeras: escute a trinca “trilógica” Vitalogy, No Code e Yield, e os incríveis Riot Act e Lightning Bolt; preste atenção na riqueza de expressão das letras de Vedder; atente para sua faceta de intérprete que o autoriza a cantar Mother do Pink Floyd de um lado e Bleed for me do Dead Kennedys do outro, muito bem acompanhado por sua banda em ambas, por sinal. Delicie-se com Into the wild e faça o exercício de enumerar as suas óbvias qualidades. Já vai dar pra encher pelo menos uma mão. 

São inúmeros os talentos de Vedder, mas, ainda assim, até hoje a habilidade que mais assombra é a de Ed sumir do lugar onde você pensa que ele está. O movimento mais inteligente do cameleão é aquele que esconde sentidos ainda que a fofoca musical fique sem cores para admirar.

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