Daniel Johns – Talk

image

Sim, estou apaixonado pelo álbum Talk do “viadinho bosta” que imitava Nirvana e Pearl Jam e que, pra mim, é na verdade um geniozinho do pop.

O tema aparecerá aqui e ali na retomada do blog, mas não será o único e, para os desgostosos de Daniel Johns, mais me servirei do disco para pensar sobre, vamos dizer, Estética do que para criar aqui uma fan page roots e menininha.

Em poucas palavras, acho que com esse álbum Daniel, com o perdão da rude expressão, passou a vara em todos os ícones alternativos e grunge adultos de sua geração.

Quase todos flertaram com o eletrônico e o desbunde pop. Acho que todos amoleceram o coração X. Para desapontamento dos fãs teen (ao menos os daqui do terceiro mundo) aquela intensidade raivosa, resumida em drivers vocais bem pra lá do grotesco, passou. Passou, velho, passou.

Billy Corgan, descobrimos, deu uma sorte danada na vida em montar uma das bandas mais legais dos 90 (minha opinião, claro), mas tem, por si só, baixíssimo talento musical, compondo e cantando muito mal em seu eletro-shoegaze disco solo Future Embrace e em outros projetos horrendos (permitam-me não citar aquela banda fedorenta que começa com Z).

Chris Cornell com seu Scream (daqui por diante não pedirei licença para carregar na expressão da Verdade, isso que reles mortais chamam opinião) lançou um álbum competente tecnicamente (pois é grande músico), mas terrivelmente chato e com a falta de elementos fundamentais como apelo e escracho de emoção. É uma epopéia eletro-gospel-rock competente, valendo a audição, mas extremamente chata.

Thom Yorke é um monstro. Um artista corajoso. Costumo dizer que os B-sides do Ok Computer são o segundo melhor álbum dos 90. Mas sua esquisitice cansa. Por que não um desbunde? Por que não um grito de “eu sou belo e vou cantar agora um refrão deliciosamente sensual e pegajoso?” (Minha música preferida do momento é Chained, presente em Talk.)

Eddie Vedder é um dos meus artistas preferidos. Não consigo o imaginar fazendo algo eletrônico (as excelentes canções Push me, pull me e You are foram o mais perto que o bardo puro chegou disso), mas o fato é que minha tirada a respeito da geração X tinha em mente seus gritos nos 90 e sua leveza sideral no momento presente.

Seu trabalho solo é belíssimo e muito corajoso artisticamente (pelo despojamento e concentricidade), mas Ed não tem (e nem deve ter) a capacidade de articulação musical de um Cornell, um Yorke e, tcharãm, um Johns.

Com isso chegamos ao meu assunto preferido kkk. Com Talk Daniel Johns destrói todos os seus amigos gênios. Isso porque nenhum dos trabalhos citados (os álbuns solos daqueles músicos) tem a diversidade, a musicalidade, a autoridade e a qualidade (dade dade dade) no “flerte” com não só um estilo diferente, mas com vários estilos diferentes, com compreensão e acabamento estupendos, dentro de um mesmo álbum.

Passar num piscar de olhos de uma estética a outra (tendo como gêneros o modern R&B, o pop, o rock psicodélico, a música eletrônica convencional e experimental e algo forte da intencionalidade de um crooner) como as contidas nas canções Aerial love, Preach, Imagination, Dissolve, Warm hands e New York lamentando em entrevistas o fato de ter perdido um celular com mais de 200 ideias não é pra qualquer um. O sujeito se diz capaz de compor músicas completas sem levantar da cama e afirma que mentalmente não consegue não estar criando uma canção. São ao todo 15 músicas em Talk e mais duas no EP Aerial love (as pérolas Surrender e Late night drive).

O grande diferencial de Johns em relação aos trabalhos dos artistas citados está na enorme naturalidade e ousadia de sua capacidade de invenção. É como se a musicalidade por ela mesma estivesse presente nele de maneira mais inerente e fluída. Cada melodia de Talk, por exemplo, parece ter brotado de uma inspiração autêntica e não forjada, vamos dizer, “para o trabalho”  ou para um compromisso estético com algum ideal.

Para os céticos que quiserem dar o play do mau gosto antecipado em Talk eu recomendaria prestar a atenção no mínimo na diversidade das canções bem como em outra das maiores virtudes do álbum: a capacidade vocal do artista. A riqueza de todos os timbres escolhidos e da produção seriam outros dos pontos fortíssimos.

O caráter laudatório deste texto me faz parecer estar de quatro para a “biba inautêntica” que para muitos é Mr Daniel Johns. E estou mesmo. Mas defendo cada elogio posto aqui como conhecimento técnico e maturado da audição de música. Eu sou um crítico musical. O mundo ainda não me conhece, mas a minha mãe sim.

Pense assim: o sujeito (Daniel) tem 36 anos e 22 de carreira. Se você colocar as tags “Daniel” + “young” em sua busca no Google vai encontrar fotos atuais do garoto, mesmo que esteja procurando retratos do seu começo de carreira – aos 14. Quando canta, pode ir do gutural ao falseto em um segundo. Desde Neon Ballroom (o terceiro álbum de sua antiga banda) desafia-se artisticamente e é moderno musicalmente.

Ele merece sua atenção. Ou pelo menos venha bater um papo com a tiete orgulhosa, que teve conhecimento bem tardio a respeito do Silverchair e que sou eu mesmo.

Ouça Talk no Spotify ou no Youtube.

Abaixo, duas ótimas entrevistas com o cidadão:

Anúncios

3 comentários em “Daniel Johns – Talk

  1. Um ótimo texto para um ótimo disco. A maioria dos meus amigos fãzinhos de Silverchair repudiou tremendamente esse disco. Eu, como nunca achei o Silverchair isso tudo, ignorei o passado do Dani Boy e ouvi o álbum sem pré-requisitos. Li depois muitas críticas positivas e negativas a respeito, mas cheguei a uma conclusão: alguns artistas amadurecem, outros vão para o freezer e alguns vão sem escalas do verde ao podre. Esse jovem senhor, entretanto, nos enganou. Não era uma fruta só, era uma árvore carregada, e aposto que ainda tem muita coisa verde nela esperando pra ser colhida.
    Abraço, mokiridu!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Salve Sandro! De todas as pessoas para quem indiquei o Talk (e foram muitas) o seu retorno foi o mais próximo da experiência que eu próprio tenho com o disco. Muito legal isso.

      Algo no meu inconsciente escolhe álbuns e artistas desafiadores pra dedicar atenção. A música se quebra (minha compreensão dela) e ali se revela. Pra mim é desafiador gostar de Silverchair em 2015 (comecei em 2013 com uma intriga por até onde ia o talento do Daniel) assim como gostar do Talk, ou como gostar do disco do Gismonti em que toca Villa-Lobos com sintetizador ou gostar de Webern, etc, etc

      Enfim, vou chover no molhado porque você é um apreciador e vivente bastante aberto, mas não é porque é pop que é menos desafiador. O meu desafio é quanto mais gostar melhor.

      Vi por trás do Talk um artista miniatura do Paul Klee. Um cara totalmente consciente das sutilezas das curvas que desenha, do espírito do próprio trabalho, alguém que conseguiu casar emoção e razão de maneira natural. E isso nessa delícia que é a música pop em sentido estrito.

      Concordo plenamente com sua metáfora da árvore carregada. Nas entrevistas que anexei ao texto vejo no Dani Boy um cara que está adivinhando o futuro e se alimentando com saúde dele.

      Ao contrário dos rancorosos…

      Muito obrigado pelas palavras!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s