Álbuns difíceis

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Todos ao menos já ouviram falar de álbuns difíceis. São criações musicais muitas vezes tachadas de experimentais ou psicodélicas ou até mesmo, singelamente, “muito loucas”.

Acho um exercício fundamental na audição de música estar exposto, com uma boa assiduidade, a álbuns desafiadores. A duração de cada música e sua estrutura (nada de introduções, desenvolvimentos e auges benevolentes ou sentimentais) costumam ser dois dos mais evidentes alvos do artista desafiador.

Há álbuns difíceis também na música pop. Aqui e ali elementos de abstração, literatura nas letras, invasões de linguagens musicais de estilos diferentes, etc A própria proposta ou conceito do som, para um olhar minimamente esforçado, já é de saída um golpe da inteligência.

Dentre as posturas que menos respeito em comentários sobre música, está aquela que vê a loucura de um som, atesta essa loucura, mas não se envolve com ela. Ou repete a loucura social alheia, mas não reage espontaneamente a um som novo reconhecendo elementos interessantes.

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Tim Maia Racional: há mais de 10 anos sendo cult and I don’t like it.

É preciso reconhecer a infinita possibilidade de extensão, esvaziamento, sinestesia, intencionalidade, ironia e consciência a respeito desta arte imensamente popular (costumo dizer que a música é a arte que deu certo).

Não basta citar Pink Floyd, Radiohead, Tim Maia Racional ou qualquer funk lounge como exemplos de sons “loucos”. A loucura quando repetida cansa e se torna burrice. A melhor amiga da loucura é a invenção. Eis o desafio que rigorosamente mais admiro: apontar para sons contemporâneos e não tão conhecidos. Ali é você criando sentidos.

Também é necessário dizer: como o filósofo alemão Heidegger critica a ciência moderna por se considerar mais exata que a ciência antiga ou medieval sendo que a exatidão é um princípio seu e não das outras ciências, da mesma maneira valores conservadores como “riqueza”, “sutileza”, “originalidade” e “complexidade” musicais são imensamente restritivos e, eu diria, surdos.

Imaginem que eu repita: um, um, um, um, um, um, um. E assim constantemente, até completar por volta de 15 “uns”. Para a imaginação tradicional (pré-moderna eu diria) o que houve foi uma sucessão repetitiva de “um”. Na arte isto não vale. A imaginação artística entrega à expressão um caráter, podemos dizer, prontamente dialético.

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Marcel Duchamp mostrou há mais de 100 anos que o sublime não é inerente ao objeto, provocando a inteligência a ser inteligente.

Ao dizer um eu tenho uma obra. Ao dizer um, um; outra. Três uns enfileirados são como três intenções de significado, três “ganas” por expressão. Três desafios ao tempo que se valem da repetição aparente para justamente o desafiar. Não são a mera preguiça intelectual de se produzir um “dois” ou “três” ou ainda um tudo e um nada. São uma resistência, uma afirmação.

São vontades de ferir o apreciador com a força da razão em seu sentido mais próprio. Este sentido não se coaduna com o imposto por uma visão senhorial onde razão é algo que se atinge segundo o mérito. A razão é um dado e acontece violenta e espontaneamente. Pode seguir ordens e “mesmo nisto” exercitar sua loucura ou sensualidade.

Podia me estender mais na filosofice, mas que esse post sirva também para o prazer do momento, seguindo uma lista de álbuns “difíceis” que aprecio e recomendo muito, tanto isoladamente para uma apreciação espontânea quanto para fins de exercício de escuta e pensamento estético.

Alguns álbuns difíceis, mas que viram sublimes:

Bitches brew – Miles Davis. gênero: jazz fusion. No Spotify

Casa das Andorinhas – Egberto Gismonti. música instrumental brasileira. No YouTube.

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O excelente e pouco conhecido “Casa das Andorinhas” do Gismonti. Orelhas em espacate.

Loveless – My Bloody Valentine. rock alternativo. No Youtube

Jóia – Caetano Veloso. MPB. No YouTube.

12 etudes (Debussy) – Maurizio Pollini. erudito. No YouTube

Talk – Daniel Johns. eletrônico, modern R&B. No YouTube

Nenê Trio – Outono. música instrumental brasileira/jazz. No YouTube.

Sigur Rós – ( ). rock alternativo. No YouTube

Eric Dolphy – Out to lunch. jazz. No YouTube

 

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O clássico “Out to lunch” é jazz, mas jazz como você nunca ouviu.

 

 

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2 comentários em “Álbuns difíceis

    1. João muito obrigado cara!! como comentei no post do Novo aquário musical prefiro o Jóia por ser, pra mim, um tipo diferente de álbum difícil. um dos pontos de vista principais do texto é que não necessariamente o álbum mais “carregado” é o mais difícil. acho que jogar com as extensões do som (por exemplo a duração de uma ideia apresentada, uma intervenção que pareça ousada mas que acabe sendo assimilada pela música a ponto de passar despercebida) pode ser infinito. o Jóia é difícil na simplicidade, no minimalismo. na variedade das intenções, na liberdade artística. acho que o caetano conseguiu um equilíbrio incrível nessa obra. mas amo o araçá também. abraço meu caro, obrigado pela leitura!!

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