Review: show da The Shorts no Jokers

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fotos de Anderson Loyola              

Sim, a The Shorts merece a sua atenção. Assisti o show da banda no Jokers, bar aqui de Curitiba, no dia 3 deste mês e curti. Estamos em 2015 e acionar o desconfiômetro diante de uma banda de rock não é tarefa nada difícil. O ambiente, ou o zeitgeist, conspiram. Mas música é música.

Clichê: hoje você, e milhares, se perguntam cadê aquele moleque dentro de vocês que fazia da caça a bandas o esporte preferido. Mas estamos em 2015, aquela apreensão por uma cena explosiva dorme profunda profundamente, os bares de rock, mesmo existentes em relativa abundância numa cidade como essa, não proliferam e não fervem,  o samba-lounge-rock e o maracatu semi-atômico são a visão do futuro para os novos roqueiros, que são moles de coração.

Não desacredito que coisas novas e em grande número possam surgir em um único lugar, muito pelo contrário, e o fato é que a banda The Shorts (formada por Natasha Durski: vocal; Andreza Michel: baixo e backing vocal; Babi Age: bateria; Taís D’Albuquerque: guitarra e backing vocal e Daniel K: guitarra) me pareceu uma digna candidata a representar, utopicamente, um pedaço desse sonho. Por ela revi em fresta clara que tipo de Graça eu procurava quando ainda tinha cabelo.

A energia que explora simples progressões de acordes e faz levadas simples terem um suingue inexplicável estava lá; os sorrisos nos rostos dos guitarristas dedilhando contrapontos agudos entrando na hora precisa e fazendo mágica estavam lá; uma excelente baterista que tira o som que deve ser tirado, na altura que a música pede pra ser entendida, estava lá; ganchos e dinâmicas reconhecíveis mas com força de sentido lá estavam; a construção de melodia que começa com humor e entonação dramática definidos também lá estava; uma vocalista carismática, com performance segura e que chama atenção sem exagero estava lá também.

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E a arte, esta convidada hoje tímida e tensa, estava lá também. Sorridente e bêbada. Pra que mais?

A pretensão de uma banda de rock consciente da música enquanto arte não tem limites. Em seus aparentemente simples acordes, simples progressões, ausência de conscientes modulações, arranjos construídos praticamente em cima do nada, guitarras distorcidas no refrão, etc está escondido o mais escancarado tiro no coração da abstração e, portanto, uma vez aceito o enigma, não se espante se você enxergar curvas, cenários, delicadezas, manchas ultraviolentas de cores em proporções inexplicáveis, caminhos, aura, torpor, adrenalina.

Você só deve se perguntar: “confio?” E se disser que sim, você verá. Eu vi.

Sempre achei e cada vez mais acredito que os músicos tradicionais (os instrumentistas e arranjadores, mas também essa espécie esquisita, pois na maioria das vezes só aparentemente aberta que é o músico-roqueiro) têm muito a aprender com o rock, principalmente da escola Velvet Underground.

Pra mim o significado surge sempre de uma aproximação destemida e inocente à simplicidade. Se todo músico, independente do gênero, pudesse estar em força vibrante, como um dínamo, próximo, colado, à simplicidade, ele faria grande arte sempre, uma arte de expressão violenta e clara. Ele mais compreenderia o que deve ser feito do que faria o que deve ser compreendido.

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A pretensão de uma banda de rock consciente do poder da expressão não tem limite porque ela não pretende agarrar o sublime por mérito e sim à força.  O imenso, imenso guarda chuva imaginário que poderia abarcar todos os defensores do politicamente correto que me entenda: não estou defendendo o estupro e sim a desinibição. Nem tudo é ciência e engenharia. Muito pelo contrário: a mãe de nós todos é a mentira honesta.

Em simples palavras: o riff de guitarra distorcida repetitivo na verdade não é repetitivo. Existe uma traição ao que é mais evidentemente presente. Existe um desenho que se abre em espiral. O riff circunda o cenário, aponta pra ele e o exalta.

O cenário é rico. Mas rico como o que vem do chão. É o jardim que brota dessa velha ciência profana que se chama rock. Quando há muita atenção e consciência é preciso redobrar os esforços pra que o sentido não morra. A maldade ou a pobreza são, em todos os sentidos, apenas aparentes. Democracia não é nada sem esqueleto e coração fortes. Viajei, mas é isso aí.

De sorte que, voltando ao começo, a The Shorts merece sua audição e sua presença. Ali existe pureza no som. Uma das coisas que mais gosto no rock alternativo é a capacidade que tem de apresentar convenções anti-musicais que, vistas no abstrato, são pobres, mas vistas de perto são conscientes e cheias de significado. É como se onde devesse haver um ou dois tãn dãn ou uma convenção big band de múltiplas vozes e polirritmia, ali fosse colocado um silêncio, uma pausa, a convenção mais simples, somente em abstrato desastrada. Ali, há linguagem e a linguagem fala “carne”. Não método.

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Eu apontaria o My Bloody Valentine como uma das grandes referências pra você intuir ou entender o som da Shorts. O Siouxsie and the Banshees e o Sonic Youth outras duas. Nelas a grande característica pra mim é haver o ápice de uma atitude moderna em relação ao rock e ao pop. Existe finesse, existe humor e tudo fala de maneira muito cheia de sedução.

Pra além dessas referências há algo pesado e bastante firme no som da banda. Eu diria másculo, até, pra fora de um sentido meramente masculino. A arte tem dessas elevações: faz os anjos descerem à terra e faz humanos tornarem-se beleza sem identidade. É uma alquimia ainda hoje latente e latejante em toda boa banda de rock.

EP completo da banda, Serendipity:

 

Clipe da música Happy Lies:

 

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