Um vlog interessante e o Reflektor do Arcade Fire

 

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Gostei muito de ter descoberto o vlog theneedledrop. O autor, Anthony Fantano, apresenta seus pontos de vista a respeito de um amplo rol de gêneros de música de maneira desinibida, enérgica e bem humorada.

Já vi músicos inteligentes criticando negativamente o papel do crítico (atitude engraçada porque contraditória), generalizando até que ele seria inútil e ilegítimo. Não se deve levar muito a sério o juízo de um crítico. Mesmo quando ele é incisivo, na verdade o que está havendo ali é uma espécie de retrato livre das impressões que uma obra provoca nele.

Então, quando um crítico diz “não gostei disso, nem daquilo; isso poderia ser melhor; este piano repetitivo muito me agrada; esta melodia [no limite da simplicidade] é linda; este arranjo poderia ser mais modesto [!]; etc, etc” ele não está afirmando verdade, nem podendo criar a derrota de um artista. Este precisa acreditar no seu trabalho e aperfeiçoamento, na firmeza da estrutura de seu aparecimento pra galera e usar a crítica (mesmo que absolutamente negativa) como uma fábula, para pensar.

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O grande crítico Antonio Candido cunhou uma frase que virou epígrafe de um poema do Drummond. Qual o limite de influência entre crítico e artista? A frase: “Porque há para todos nós um problema sério… Este problema é o do medo.”

Apesar de desconhecer mais de 80% dos artistas comentados por Fantano, em geral gosto muito de o ouvir e respeito suas opiniões. Há este caso do álbum Reflektor lançado em 2013 pela banda canadense Arcade Fire em que discordo completamente. O vlogger detestou o álbum e eu o adoro.

Um pequeno parênteses: um dos exercícios mais importantes da função de crítico,a despeito de seus plenos poderes, é o da aceitação. Aceitação do que acontece, de como o mundo recebe e entende uma obra. Que fique claro: o crítico pode até discordar do que é consenso, mas antes precisa estar aberto a aceitar. Se não, o sentido de seu discurso brota de uma negatividade de princípio, como, grosso modo e perdão pela piada, o de alguém que não aceitasse que a grande maioria dos sushis fossem crus.

Digo isso porque o Arcade Fire é, em termos de repercussão popular e crítica somadas, uma das bandas mais fortes da atualidade. Com elevadíssimo respeito crítico (Fantano, por exemplo, é fã da banda e dos trabalhos anteriores) e grande admiração da galera (apesar de não ser completamente big stadium) os canadenses certamente já deixaram sua marca na história.

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Anthony Fantano em ação. Verborragia, ecletismo e mais de 500.000 inscritos em seu canal de crítica de música. “O music nerd mais ocupado da internet.” Eu não.

São várias as características que diferem Reflektor dos trabalhos anteriores. É um álbum duplo, apesar de ter poucas faixas (13, sendo que o anterior tinha 16 e era simples, o que revela uma escolha conceitual); é o mais ambicioso e liberto abraço a diversas linguagens musicais; é o álbum com a presença mais forte de recursos eletrônicos; é, agora pra mim, um disco que inaugura uma fase de maturidade da banda; e é o álbum mais difícil do grupo, colocando em outro nível sua já consagrada pretensão de ser aquele tipo de banda que tenta ao máximo fazer uma síntese livre do presente na história do pop (ou seja, pescam qualquer referência ao bel prazer da espontaneidade da criação, claro, não esquecendo da espontaneidade com que fazem isso e de afirmar algo próprio).

Mas não. O senhor Anthony Fantano faz breves elogios às letras da obra (um dos pontos fortes da banda) e em seguida faz a crítica mais frontal imaginável a ela: afirma que a visita aos diversos gêneros musicais é feita sem domínio e de maneira inautêntica.

Se você não gosta de Arcade Fire realmente este pode ser o seu grande ponto, como era o meu há 2 anos atrás quando eu não gostava e nem conhecia a banda: os músicos não são espetaculares, parecendo muitas vezes 6 indies mais indies do que a cartilha indie reza, tocando ensandecidos num palco, estuprando instrumentos diversos de maneira quase aleatória ou bem básica.

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Arcade Fire é carnaval.

Acontece que (caso à parte as opiniões de Fantano) isto é uma caricatura equivocada. É preciso chegar mais perto de uma discografia que alcançou tantos e tão difíceis entusiastas (citaria Neil Young e o site Pitchfork, este bastante conhecido por sua alta caturrice/exigência). Apresentar o desenho exposto acima é o mesmo que dizer que Salvador Dali é apenas sobre o quão louco e sem sentido um artista imerecedor pode ser.

Considero Reflektor o melhor álbum da carreira do Arcade Fire. Isso vem um pouco de uma característica minha enquanto apreciador de música, uma espécie de valor que, ao contrário da tendência geral, consiste em gostar mais, ou tanto quanto, dos trabalhos recentes em relação aos primeiros. Gosto de ver o tempo passando por uma banda. E um dos indícios que me fizeram começar a ter a atenção atraída para o disco está na vibe que Win Butler e banda trazem em performances e entrevistas recentes.

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Seria um louco ou um cínico à moda grega um sujeito que solta a pérola: “A morte está tão próxima que eu posso tornar erótico cada segundo da minha vida”?

É uma energia que transpira (além de maturidade) coragem, leveza e (sim) humanismo. Valores que não têm nada a ver com um otimismo simplificante e sim com uma assunção radical do papel do artista enquanto cidadão do mundo, ser trágico, pessoas simples que conduzem afeto por escolha e de maneira aberta. É bonito de ver.

Mas musicalmente também vou na contramão das opiniões de Fantano. Acho a musicalidade da banda em Reflektor mais inspirada, muito mais técnica e adulta do que nos trabalhos anteriores. Pra mim, nos 3 primeiros álbuns havia um quê de adolescente no instrumental que, apesar de não ser um ponto negativo, nem de longe vou preferir a uma atitude mais relaxada, complexa e consciente.

Os arranjos são belíssimos ao longo dos dois discos, a riqueza dos timbres, dos contrapontos, do muito mais evoluído senso rítmico e imagético, do “roteiro” das músicas, da ousadia em incluir filosofia, mitologia, crítica e, junto a isso, rua é evidente para um ouvido que talvez não estivesse tão contaminado por expectativa como o fã Fantano.

Sobre a palavra rua, acho que é a grande chave deste disco, apesar de seus momentos de voos downtempo e metafísicos. É como se o Arcade Fire quisesse criar um mini-compêndio do que toca nas ruas no nosso tempo com suas armas autorais. Mesmo nas referidas canções introvertidas parece estar havendo um culto ao contemporâneo pelos temas, pelas texturas, pelos momentos relaxados e de contemplação hipnótica também próprios de um nosso dia.

O álbum parece querer e poder ser a trilha viva que pressentimos numa rua de Salvador, Nova York, Porto Príncipe (cidade e país sede do engajamento concreto da banda) ou mesmo em uma paisagem natural e vazia como a dos Lençóis Maranhenses (!).

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Uma das músicas criticadas por Fantano e uns tantos bloggers é uma das minhas preferidas. A curta Flashbulb eyes é a terceira faixa do disco e traz, pra mim, um enorme gosto de rua e mesmo, num ótimo sentido, de terceiro-mundismo. É uma típica canção popular em sentido universal, mas com letra inteligente, riqueza sensorial e musicalidade.(Fantano ainda destrata a pra mim maior pérola do álbum que é Here comes the night time com argumentos que mais mostram aquele tipo de fastio dado de princípio do que solidez.)

Uma grande banda mainstream tem pra mim como maior poder de todos o seguinte: o de transitar por vários lugares e se misturar ao mundo. Deste exercício, em raríssimos casos da atualidade aplicado com tanta abertura e dignidade como pelo Arcade Fire, só pode brotar atenção afiada, pertinência e boa música.

Ouça aqui o Reflektor: no Youtube. No Spotify.

Aqui a crítica do vlog theneedledrop:

 

De brinde uma ótima entrevista do líder do Arcade Fire, Win Butler, na época do lançamento do disco:

 

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