Pra se ouvir música em Curitiba: Cláudio Pimentel

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Esperança para os românticos: a melhor companhia da música pode brotar do nada, em um pequeno bar, criada por um artista completamente centrado naquilo que está fazendo, e parecendo também naturalmente alheio a qualquer coisa que não a maneira como seu som, este sim presente, aparece no recinto e é captado pelas pessoas. Aqui em Curitiba isto aconteceu comigo na noite em que conheci o músico Cláudio Pimentel.

O som do intérprete Cláudio (pensando aqui em repertório e execução) pode servir de teste de bom gosto musical dos gêneros música pop e rock pra qualquer um. Aos ingênuos, afirmo: não, não me refiro ao pop rock de Lulu Santos e Jota Quest, até porque o pop pode se remeter a toda uma genealogia de finesse, rebeldia e arte que, apenas por infelicidade, ainda hoje não está lá muito presente nos nomes em geral associados a ele. E aos descolados cabe registrar: nem tudo são caras e bocas.

Também não se trata de dizer que passei no referido teste, pois nem sempre conheço o que está sendo tocado. Não é essa a avaliação: a aprovação se daria se o ouvinte fosse capaz de perceber a música subindo pelas paredes do lugar, sentindo-se grande porque intocável, discreta e ao mesmo tempo forte, invisível, que é como tem que ser.

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Olha, o Eros Ramazzotti!! Não, é o Cláudio Pimentel. Mas por que não Eros Pimentel?

O Cláudio também tem um trabalho autoral que deve ser dissecado em outro momento, mas, se você está sedento por ouvir um repertório de intérprete fora das “mais de sempre”, inclusive em relação às emburrecedoras mais de sempre dos dinossauros ou dos moderninhos tanto do rock quanto da MPB, o show do Cláudio é mais do que recomendado. Ali você ouvirá a menos tocada do Bob Dylan (Positively 4th street é uma das minhas preferidas do repertório), ouvirá Siouxsie and the Banshees, Velvet Underground, Roy Orbison, Bowie (\m/), Radiohead, pérolas do rock nacional e aquela que considero a especialidade da casa que é o Smiths.

E o mais impressionante além da introversão impenetrável e pacífica do músico é o volume em que toca e abre a goela. A música do Cláudio (no sentido da maneira como ele transmite música) não é mero fundo obrigatoriamente alto astral para sua noite, é muito mais do que isso, é quase que a personificação de um amigo cool. A dinâmica da execução do artista é realizada de uma maneira que o som dá a sensação de ser um vinil (ou qualquer som mecânico) em um aparelho de excelente qualidade, tocado no volume certo. Só que é um músico, tocando na sua frente e capaz de dar interpretação aos mais inteligentes e também trágicos compositores do pop.

Nessa atitude está o resultado de não permitir que se perca energia para preocupações exteriores à música, coisa que contemporaneamente vemos evidente várias vezes em outros artistas, como quando “aquele músico” decide fazer intervenções no intervalo de uma canção ou mesmo quando parece pensar alto demais no meio da mesma.

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Cláudio nos palcos à frente de sua banda, os Misantropos.

 

Na cabeça deste cancioneiro ou performer imaginário, ele está cumprindo o ofício de interagir, mas na verdade o que está fazendo é perguntar, virginalmente: “Estou agradando?” ou “Acho que já é hora de enfileirar 13 comentários teens non sense para mostrar para a plateia que eu suponho ser teen non sense que eu também não faço questão de fazer sentido” ou “Será que estou tocando bem? Sou capaz de convencer outros músicos?”ou “Será hoje o grande dia em que o piá de prédio encontrará a orgia? Oh, música! Eu te amo!”

Obviamente não é somente para este ou aquele nicho que recomendo o som do Cláudio. O show dele vale para aquela noite de apreciação solitária ou bem acompanhada em que você experimentará o autêntico espírito de ouvir música. Sabe? Quando música não é menos que o rolê, quando é ela que dá tom ao rolê e não fica sendo um suporte pra que alguma coisa aconteça ou imaginemos que esteja acontecendo. Ali ela acontece mesmo.

Abaixo um video muito bem produzido para uma interpretação de Used to be a sweet boy do Morrissey:

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