3 notas sobre Talk

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Dando sequência há já 7 meses de audição cuidadosa e lisérgica do álbum do Daniel Johns.

A mudança de gênero musical em Talk eu suponho que cada ouvinte deva tratar como um passe de mágica – imaginando aqui a cisão entre o grunge teen cantando Abuse me ou Ana’s song e os primeiros segundos de Aerial love. Porque, se em um palanque de grandes homens que você sempre visse um general com várias condecorações, sério, herói de guerra, comprometido explicitamente com a dignidade da condição humana agora você visse subir uma dona de casa rechonchuda, sorridente, maliciosa, sábia e direta haveria até para seus neurônios uma quebra de protocolo. Por si só, essa quebra deve suscitar não espanto, mas a explicitação da maior aposta da arte. Por ela é como se a vida estivesse te entregando um sentido por si só. “A graça pode brotar de qualquer lugar”: é o que sempre penso quando dou o play em Talk. Também é como se o artista tivesse se movido muito, de pontos bastante distantes. O grande desafio é não tornar esta atitude esnobe ou casualista e o tempo que Daniel Johns demorou para voltar a lançar música de fato (8 anos) somado a um perfeccionismo que perpassa a personalidade do artista, depõem em favor deste trabalho. Começar de novo é um dos pedidos fundamentais da vida, e começar de novo mais forte e melhor, no caso mais leve, saudável e “moderno” (aqui num sentido futurista) é dos atos mais inspiradores.

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Em uma das minhas mais recentes inspiradas audições, cheguei a supor a ideia de que o personagem de Daniel no álbum pudesse ser o de um outsider intelectual a brincar com diferentes universos de sons. Imaginem um filme com cenas de perigo, tédio, livre fantasia e caos acontecendo livremente e o herói atravessando a tudo dançando e incólume, feito corpo sobreposto a uma outra dimensão de cenários. Acho que essa visão pode servir sim, mas deve ter o devido posicionamento. Em muitas canções Daniel parece ser um personagem completamente diferente do que nas anteriores, ressaltando um forte caráter cênico quase sempre. O futurista dark e lírico em Good luck, o virtuose melódico pop e desesperado em Preach e o ultra psicodélico em Imagination são grandes exemplos da diversidade de motivações cênicas presentes no álbum, o que poderia ser um forte fator para vermos um “cabecismo” no conceito dele. Mas não acho que seja o caso, ou seja, que o exercício de imaginar Talk como metalinguagem deva se perder e se instaurar como uma característica das mais próprias da obra. Há ali o pop, o autor participando da festa e, sobretudo, o coração que é algo que nos aproxima sempre intimamente do eu-lírico destas músicas. Você pode imaginar Talk como obra de um virtuose pop, mas o ideal é que nunca se esqueça que o essencial ali é a espontaneidade da inspiração.

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Uma das mais adequadas abordagens que qualquer ouvinte (ou empreendedor) pode fazer de Talk é o imaginar como um musical. O caráter dançante do álbum, a diversidade das canções, a imaginação eminentemente psicodélica de Daniel, a virtuose vocal, a estrutura de canção baseada em várias partes, os timbres e efeitos diversos, tudo contribui para imaginarmos Daniel saindo (já dançando) da pose de um crooner em New York para explodir como um andrógino futurista em We are golden. Sleepwalker combina com dança contemporânea minimalista, Good luck é noturna e agressiva mas completamente lírica, Aerial love poderia servir de estímulo para pensarmos uma coreografia coletiva bastante abstrata mas levada pelo seu suingue pop, etc Daniel é, de fato, um admirador de musicais e uma das mais agradáveis surpresas deste seu trabalho é ver o quanto sua figura amadureceu em termos de postura e saúde. O fato de ele fisicamente parecer, pela primeira vez, um dançarino somado á inteligência que usa e abusa para destilar suas canções dão um forte caráter de obra contemporânea (interdisciplinar, abstrata) para Talk. Também acho que a dança seja uma das formas de a música melhor nos presentear com vida transbordante e, se é quase sempre que isso acontece ou deve ser possível acontecer (a música ser dançante), em alguns trabalhos a dança por sua vez também vira outra coisa, sai do chão e vira o melhor cinema, imagem em puro prazer.

Aqui meu primeiro texto sobre o álbum.


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