Quando o talento encontra a invenção

título fanfarrão hehe

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Daniel Johns gravando em casa, de pijamas

Há músicas “escondidas” em Talk que me trazem alguns insights interessantes. Lembrando que estes comentários se originam do prazer de pensar e falar sobre música. E ponho aspas na classificação porque estas músicas estão ali, como quaisquer outras (exceção ás 2 canções que só aparecem no EP Aerial love e que considero parte do trabalho como um todo, falando aqui sobre uma delas), mas é como se fossem mais tímidas, no melhor sentido possível, que as outras. Talvez estas notas digam respeito mais a uma fotografia de alguns dos meus afetos mais preciosos no álbum e da pegada que me interessa em música contemporânea.

Warm hands

A primeira que eu citaria é a mais escondida de todas, Warm hands. Apresentando o fim do álbum como a 12ª música, triste, calma, doce e afetuosa, poderia ser minha canção número 1 em predileção.

Amo seus movimentos, seu tom afetivo, suas palavras (“I don’t wanna have to wait/ for the words to get of my tongue”), seu tema-murmúrio (uma das grandes conquistas de Talk é um latente uso solto do corpo), seu lamento em narração do final, como uma prece.

Nela acho que a obsessão de um songwriter aparece muito bem: ela é uma canção única, apesar de simples, e tem ideias e marcas próprias apresentadas em um perfeito equilíbrio. É, junto com New York e Sleepwalker, a canção mais melancólica, mas junto ao tom silencioso tem uma espécie de doce súplica que faz sua força.

Além disso tudo, a rigor, apesar de suas duas companheiras, a canção parece constituir um universo em si mesma, tendo um sentimento próprio muito forte. Isso pode ter sido a principal fonte para possibilitar a este arranjo grande musicalidade e grande espontaneidade simultaneamente.

Escute no Youtube.

Surrender

Surrender é a terceira canção do EP Aerial Love, lançado alguns meses antes de Talk e que tem mais uma canção que só ali aparece (Late night drive). O próprio Daniel a definiu como uma de suas preferidas em todo o processo de criação e é uma das minhas também.

A expressividade da voz nos primeiros versos (num excelente achado de uma evidente região inesperada na extensão), contraposta aos falsetes agudíssimos do refrão, o tema da música apresentado na introdução e depois tendo sequência ao fim da estrofe, os vazios, a dinâmica particular e dançante, tudo isso é bastante cativante.

Como resultado é uma das canções que mais podem simbolizar a surpresa aos fãs antigos de Daniel. Em geral a primeira coisa que chama atenção na nova fase do artista é, depois da pegada eletrônica, o uso frequente de falsetes a dar inveja a um Bee Gee em um dia inspirado, e aqui eles estão no auge. Mas o essencial, para os entusiastas, é o acabamento do resultado, a qualidade das ideias e timbres, a paciência  da canção, além do modo como os diferentes elementos se coadunam pra trilhar um desenho equilibrado (e envenenado), o que tornam Surrender uma pérola.

É como se, ao longo de todo este novo trabalho, Daniel estivesse afirmando que grau de liberdade pode ter sua capacidade musical. Em favor desta atitude de extrema mudança no risco, digo que pra mim o resultado é, como raras vezes no pop, algo bem definido/resolvido e em nada aquela atitude pra lá da forçação da amizade e no fundo musicalmente brochante.  Por trás deste desbunde eletrônico e do rostinho de modelo, está, na verdade, sentimento, depuração e, como nunca em sua carreira, uma expressividade conscientemente artística.

Escute no Youtube.

We are golden

Mesmo tendo uma visibilidade maior que as outras canções destacadas aqui, We are golden não é tão easy-listening, ou direta, como Aerial love, Cool on fire, Preach ou ainda outras. Esta é, muito provavelmente, a realização mais simbólica do álbum. Nem mesmo Aerial love traz, em termos de quantidade, tantos elementos próprios e tantas marcas do trabalho.

A riqueza e sofisticação dos timbres, a psicodelia da melodia nas entonações e divisões, a origem plural e oportuna ocorrência de contrapontos e firulas (o que é esse backing vocal Beach Boys no meio de batidões?), a musicalidade do arranjo (caso à parte a linha de baixo do refrão ou a maneira com que as várias partes da música vão aparecendo e se encaixando) e, talvez principalmente, o insight futurista da faixa, podem ser apontados como alguns dos elementos que criam esta obra-prima.

A minha insistência em falar sobre o Talk vem da minha sincera reverência diante do grau de precisão e liberdade de invenção de suas escolhas. Daniel tem uma inteligência abstrata, e um hábito de compor e depurar o que faz, que o permitem chegar a um objeto final complexo como arte moderna e leve, direto e sensual como música pop.

É como se o resultado complexo e forte ou este sentimento que tenho de que Daniel “chegou lá” (á maturidade artística) tivessem sido conquistados ou fossem desempenhados através do relaxamento, da leveza, eu diria da “saúde” e do prazer. Nesse ponto precisamente está eu acredito que o grande sentido de vincular a palavra “futuro” a esse álbum.

Escute no Youtube.

Imagination

Primeira música a me arrebatar em Talk e até hoje podendo figurar no posto número 1 entre todas. A criatividade, a musicalidade e a ousadia artística aqui chegam ao auge e novamente com um resultado compacto.

Tudo isso é bastante consciente pois é inclusive o tema da letra da canção: “I just keep on pushing forward/ untill I fall of the edge” ou “See nothing inspires like a new creation.” O tema é novamente um murmúrio na introdução, mas aqui essa frase simples é repetida, reinterpretada, desconstruída e reconstruída ao longo de toda faixa com vista a levar esta e outras ideias ao limite, o que parece ser o propósito de toda a canção.

O tema é o fio condutor para que esta faixa em forma de cubo mágico permita momentos de diabolicidade, jogo, gags, brincadeiras com ritmo e arranjo convencional, algo como uma revelação do sentido figurativo dos timbres, capricho na ambiência, sugestão e muita, muita psicodelia.

O resultado é um quadro de muitas ideias, mas a facilidade e a diversão da música pop ainda acho que seja o principal a ser mostrado, o que diz muito sobre Talk. Alguém poderia defender que um álbum mais francamente experimental seria mais a cara de uma música que procura o futuro, mas acredito que o ponto de onde o artista olha seus próprios passos é que é revelador do quão forte, plural e sedutora pode ser sua visão do devir.

Escute no Youtube.

Escute as 4 músicas no Spotify.

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Joel Little, o cara que produziu Lorde, trabalhou em algumas faixas de Talk antes do estouro da cantora. Aerial love foi um dos resultados da parceria. Little se assustou com a capacidade de Johns de pensar e gravar ao mesmo tempo, em um take.

 

 

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