O parto de um “standard”

Singer Kurt Cobain Smoking Cigarette
Kurt Cobain atento, esperando pela inspiração.

 

Considero Aerial Love, sendo fã que sou do Talk (álbum solo do Daniel Johns pra quem nunca entrou aqui), um standard, um desses achados que pelo tiro no alvo a gente pode tomar como uma referência, no caso de música contemporânea, pois ali vários elementos de uma ideia geral que poderia ficar no abstrato, ou ser apresentada de um jeito apressado, se condensaram e harmonizaram magicamente, provando, vamos dizer, que o real é realmente muito melhor que o imaginário.

Para chegar até a canção o caminho foi interessante. Ouvi a história através de uma entrevista de Joel Little,  o produtor desta e de algumas outras faixas do Talk. Pra quem não reconhece pelo nome, trata-se do cara que ajudou a inventar a Lorde, e a quem Daniel teve a sorte de ser apresentado pelo seu publisher antes do estouro da cantora (aqui o áudio, sobre Daniel a partir dos 30’54).

Segundo Joel, além de lançar em uma gravação, de ideias novas, do nada, partes prontas (como se estivesse em determinado momento compondo, pensando e cantando ao mesmo tempo), Daniel tinha o hábito de, no início de uma sessão, propor para largarem os trabalhos que tinham interrompido e começarem algo novo: “Hey, do you want to start a freshie?” – perguntava. Então as canções não-concluídas eram brutalmente interrompidas e o processo era zerado para que novas ideias surgissem.

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Joel Little e Lorde no glamour… e na arte?

Para o resultado obtido, esse processo deve ser visto, na minha opinião, com muito carinho e valor. Também é uma boa sugestão de trabalho, de brainstorming, para artistas e arteiros (hehe brinks). Pois não se trata simplesmente de considerar que uma ideia de canção, entre outras descartadas como não-empolgantes, deu certo na opinião dos compositores, ou que a falta de paciência foi suprida pela sorte, mas que essa é uma atitude que encarna uma filosofia de criação e, além disso, muito corajosa, pelo modo como Daniel faz, no caso de um compositor que toma a música pop como arte.

O frescor e a expressividade das ideias; a captura dos elementos gerais certos (como tema, instrumentação); a inspiração que, para aquela ideia que se julgava a princípio tola, não escapou do começo ao fim; a  lentidão soando, como tem que soar, na maturidade; a confiança em usar vazios e traços minimalistas quando necessário; a espontaneidade tendo atingido o seu ponto ideal… Toda essa receita pode ser vista como uma descrição exterior (caricatural até) da busca ideal universal de arte, e é um grande desafio para um artista desenvolver, se não um método em sentido clássico, um modo de estímulo para chegar lá.

Necessário acordar junto ao ouvinte mais ou menos comprometido (o cara que tá pensando sobre música e interessado em criar um gosto consciente, vamos dizer) que a música pop deve ser vista, nestes momentos, com os mesmos critérios de qualquer outra arte. Ou seja, você não sai acusando um Miró de parecer uma criança maluca pintando, com a justificativa de que em seus quadros não parece haver evidente técnica, ou nada de evidentemente extraordinário em termos realistas, ou ainda por não parecer ter havido um enorme dispêndio de tempo ali, comparando-o à Capela Sistina. “Concordo, mas para chegar na concepção houve grande esforço, certamente.” Bom, eu não chegaria nem aí.

Mujer ante el sol
Olha que bonito o desenho que o seu sobrinho fez.

Então, na música pop (e a própria Lorde é um ótimo exemplo disso) você deve, nesse nível, julgar vendo a escolha dos “traços”, a figuração, o balanço entre consciência e realização, ou ainda, pra tentar finalizar em grande estilo aqui com essas listas de ingredientes,  como deus e o diabo estiveram construindo e desconstruindo o mundo infinitamente ali (Velvet Underground & Nico é pra mim a mais perfeita encarnação disso).

Por mais simples que sejam as técnicas usadas, mais imediatistas que tenham sido as opções, menos requintadas que sejam as formações dos artistas (partindo para um exemplo extremo) é o resultado espontâneo da obra no tempo o que conta. Se você acha essa uma resolução subjetiva, é mesmo, e isso não é problema nenhum. Até porque nem tudo, na verdade nem 10%, do que você gosta em arte precisa ser a coisa mais radical acontecendo. E é justo essa a graça da coisa. A “genialidade” na arte pode estar em muitos termos.

O processo e o resultado obtido por Daniel e Joel (belo nome para uma dupla… hmmm) na canção Aerial Love pode servir, aqui pra gente, como um exemplo do ponto de vista da Estética num ramo que chamaríamos de filosofia da criação: o belo não é necessariamente um leitão que o artista esturricou de recheios e deixou assando por 2 dias. Isso não vai garantir nada. Ou seja, o belo não é belo porque ali se achou a beleza e então a agarramos e a enfeitamos com laços e fitas antes de a expor com convicção absoluta. Artista e espectador encontram o belo  com admiração e inspiração, não necessariamente nesta mesma ordem. E partir disso pode liberar muitos processos.

Não estou afirmando que Aerial Love vai virar um clássico ou qualquer coisa do tipo. O caso aqui é um claríssimo exemplo de sofisticação pop cheíssima de inteligência, prazer e diversão, vamos dizer assim, se não for forçar a amizade.

Escuta aqui Aerial Love (só o áudio):

 

Clipe:

 

 

 

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