Mierda Bonita: resenha sobre a peça (Florianópolis)

14068059_1032994510141781_1970077613709651344_ntexto por Diogo Araujo da Silva

A arte contemporânea situa-se para muito além da leitura do senso comum, como na caricatura mais fácil que atribui a ela uma vontade de chocar por apenas chocar. No outro lado, no lado da plateia classe média padrão, vamos dizer assim, está um polo que resiste psicologicamente a ver o que não se considera preparado pra ver, e que por isso interpreta o comportamento do artista como algo exageradamente livre e irreal.

É este mesmo vasto nicho que considerará o que acontece nas favelas como algo em geral “extremamente violento” e para o qual existe a policia para reprimir o alastramento até a cidade – e pronto, está explicado. As razões para isso são claras: com esta atitude afasta-se um problema para, num mundo onde todos sabemos ser difícil viver, assim podermos cuidar dos nossos problemas, que já são muitos.

Compreende-se, assim, a dificuldade da arte e da cultura em nosso país. Elas pedem, ou parecem pedir, um esforço para além da esfera privada dos problemas extenuantes do cidadão comum. Pedem reflexão e disposição a uma espécie de terapia ou possibilidade de indagação. Expõem fenômenos considerados fortes ou violentos em linguagem “despudorada”.

Em seus traços gerais, essa leitura comum é um grande engano – mesmo na ideia da necessidade de um grande esforço para assimilação. Um sentido mais autêntico para as aspirações de uma peça como Mierda bonita  (Grupo Experiência Subterrânea) está em fazer o espectador se defrontar com fenômenos puros, pré-julgamento, de maneira a gerar nova experiência. E isso levando em conta que vivemos em uma cidade.

O que se ganha com isso é algo essencial para a vida de um lugar em nosso tempo como, por exemplo, Florianópolis: é o aprimoramento de uma visão realmente cosmopolita, que sabe viver, ler, comer e beber o que de plural se oferece num modo de vida que tem muitos valores e raízes convivendo junto. Isto é bem comum, não é mesmo? É sabermos que estamos fora da vila e que nem o mais evidente dos valores pode querer se impor como uma visão objetiva e unificadora. Há nisso algo irônico dentro da motivação desconstruidora de uma peça.

13912596_1023807387727160_5116252669543813137_n

E é nesse sentido que a expressão artística aproveita um espaço a princípio abstrato (o palco, lugar de ficção) para mostrar formas diferentes de se ver valores, tabus e não-ditos. A nudez, por exemplo, não dever ser vista no teatro contemporâneo como algo somente para chocar. Não há ali valor. Combina muito mais com ela um sentido puro, irônico, e eu diria terapêutico até, se não for forçar a amizade.

Terapêutico em que sentido? No sentido de durante todo o dia o corpo ser um tabu que deve se vestir e portar conforme regras e que na arte ganha espaço para que o próprio espectador, enquanto tal, se liberte e veja que, por mais que as regras comuns permaneçam em seu lugar mesmo com a existência do temido Teatro Contemporâneo, o seu olhar sobre elas pode mudar e amadurecer. Com essa Nova Maturidade conquistada, acredite: no seu futuro pode estar um emprego melhor, uma inteligência emocional mais apta a lidar diretamente com problemas de relações familiares e, até mesmo, uma sensibilidade e discurso mais aptos a reconhecer as sutilezas da culinária tailandesa, se me permitem a ousadia. A arte é um exercício que pode fazer o ser humano apreender a realidade de forma mais rica.

Além do mais, se o tema da sexualidade não é importante para você e sua mesa de bar, é bem provável que venha a ser vital para seu filho ou filha. Uma das intenções da peça, como dá a entender a descrição do seu evento, é tirar algumas coisas da “caixinha”. Para qualquer leitor de internet minimamente disposto a metáfora é clara: a todo momento lemos artigos como “Antes da chegada dos cristãos europeus, nativos norte-americanos reconheciam 5 gêneros”. É por essa razão que numa peça de dois atores e uma atriz todos desempenham ações tipicamente consideradas masculinas e femininas, por vezes mais parecendo 3 andróginos ou até mesmo 3 figuras “meramente humanas” em processo de auto-desnudação de seus papéis sociais.

14212197_1043659855741913_7902617625833508171_n

O teatro é uma das artes mais difíceis da atualidade, se não a mais difícil. Difícil de se fazer, difícil de se escolher como profissão, de atrair público, de se lidar com as opiniões burras do senso comum. Agora, para um olhar um pouco mais atento e diante da obra tão disposto a olhar para si quanto para outro,  é também, bastante provavelmente, a arte mais interessante. Ela pode nos apresentar a vida e a expressão nuas e cruas, com poucos ou nenhuns recursos espetaculares, e com aquela proximidade de corpos que não nos deixa fingir o despreparo.

PeçaMierda Bonita (Grupo (E)xperiência Subterrânea)
Quando: sábados no Museu da Escola Catarinense 3, 10 e 24/09 e domingos na Casa Vermelha 4, 11 e 25/09, sempre às 19h
Evento: aqui.

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s