Entrevista com James Joyce

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Entrevista fictícia com James Joyce que escrevi em 2011. 

A escrita tem um espaço de liberdade muito grande. Defendo, e acho que essa é a minha cruz pra toda a vida, que parte do mal estar do nosso tempo no nosso país se origina da pouca atenção que damos aos livros. Na escrita você pode brincar de ser um entrevistador que não é Fausto Silva, mas Faust Silver e que entrevista um dos maiores escritores de todos os tempos, no caso James Joyce, como se ele só dissesse baboseiras (o que o escritor, no caso eu, supôs que em certo sentido poderia ser o que ele diria mesmo, do modo como escrevi). Parte da razão da nossa crise vem da espera de um salvador e da ausência de uma consciência individual (não confundir com um mero individualismo) que nos faça ver o tempo presente e o mundo nu e cru e não a espera por uma salvação coletiva e que fantasiosamente coincidirá com o nosso credo individual. Existe uma imensa ingenuidade e fragilidade na psique do brasileiro, a de ver o valor do outro pelo filtro do próprio valor e não o que antes se comunga por primeiro, depois a diferença. Como disse a cantora Björk em uma entrevista, se perguntassem no país dela “quem vai te salvar?” a maior parte das pessoas responderia “eu mesmo”. Nisso, repito, não se deve ver a defesa de um individualismo egoístico e sim a condição para que se deixe de fantasiar e ao invés se aprenda a viver em comunidade.

 

Faust Silver: Sr Joyce você acha que em 2011 ainda estarão lendo o seu Ulisses?
James Joyce: Com certeza não. No máximo estarão sonhando com o Finnegans Wake. De olhos bem abertos. E olha lá.

FS: E por que razão você acha que negarão a sua maior obra?
JJ: Porque minha maior obra não é essa. Está em andamento. Colocarei apenas elementos. Bebidas mais leves e ácidas (a cor é que é muito importante). Mil mantras curtos e grossos. Grandes bunkers elevados em que se esconda tudo, etc, etc Não me canso de ver o fato de que eu inventei o plágio.

FS: E a vanguarda então? Como que fica? Existirá?
JJ: Estão acertando os últimos detalhes. Apelidei-a de B.A. Mas a B.A. é como que um tom. Ponho homens e mulheres dançando em volta de B.A., em mil carrosséis de cavalos pretos, em grandes bandos de membros grandes, sem possibilidade de circulação. Abraçado à B.A. está um cantor com cara de sapo, baixinho, gordinho e de heróicas sutilezas em vozes femininas. Todos o acham um doce. Mas pus veneno dentro. Serve-se comidas pantanosas onde se enfiaram animais sujos benzidos em ervas. Tudo em escala micro. Grande será o horror.

FS: E porque você não descreveu estas visões?
JJ: Porque estou esperando a versão pirata. E estou com coceira na perna direita.

FS: Mas o gozo da original não lhe valeria a pena?
JJ: A maior das penas (a esferográfica) tenho-a nas minhas mãos.

FS: Compreendo. Haverá futuro então para a literatura?
JJ: Tão só e somente.

FS: Sr Joyce, o que você pensa da ficção científica?
JJ: O meu muito obrigado.

FS: Como você definiria a Europa em uma palavra?
JJ: Tichibum.

FS: James, existe a mulher perfeita?
JJ: Creio que não, mas a mais imperfeita é imensa, cheira à asa e tem e terá sempre amor no nome. É afeita a galhofas. Puns. E outros prazeres.

FS: Você acredita em inspiração ou apenas no fluxo de consciência?
JJ: Isto não é pergunta que se faça para uma bailarina profissional.

FS: De toda a história universal qual personalidade você mais admira?
JJ: Ficaria entre o asno e a borboleta.

FS: Algum filósofo?
JJ: Alguns.

FS: Quais?
JJ: Nenhuns.

FS: Para terminar, sr Joyce, para o senhor há algum acontecimento lamentável na história humana?
JJ: Talvez a letra Z de zebra, pela qual de vez em quando me vejo perdidamente enamorado.

 

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