A polêmica da Carolina de Chico com Caetano

Textos sobre certa polêmica entre Caetano e Chico a respeito da versão do primeiro pra “Carolina” (Chico).

Primeiro o contexto, depois o texto do Caetano. Também a versão do Caetano no Spotify (com bem mais qualidade que as do Youtube). Mais abaixo a entrevista do Chico.

“A música mais controversa do álbum nem era uma composição de Caetano, mas uma versão despojada, de certa forma letárgica, de ‘Carolina’, de Chico Buarque, uma bossa romântica bastante orquestrada apresentada em seu terceiro álbum. Como resultado do incidente no festival de 1968 da TV Record, no qual Gil supostamente vaiou sua música, Chico Buarque na época tinha se distanciado dos tropicalistas. Os críticos interpretaram a versão de Caetano para ‘Carolina’ como uma paródia do lirismo de Chico Buarque. Em uma entrevista publicada n’O Pasquim, Chico expressou certa irritação com referência ao conflito real ou imaginado com os tropicalistas, argumentando que nunca foi um defensor ortodoxo da pureza na música popular brasileira. Explicou que não gostou da interpretação de Caetano para ‘Carolina’ basicamente por razões técnicas, mas que não tinha como dizer se de fato ela representava uma crítica. Fica claro na entrevista, contudo, que a versão de Caetano tinha irritado Chico.

(…)

O próprio Caetano escreveu um texto enigmático para O Pasquim, no qual tentava esclarecer suas intenções, mas o texto não foi publicado na época. No artigo, ele propunha que a figura da Carolina na música de Chico poderia ser entendida como a ‘antimusa’ da Tropicália, simbolizando o tipo de lirismo romântico que o movimento buscava criticar. No entanto, Caetano argumentou que o momento tropicalista já tinha passado e que múltiplas avenidas criativas haviam sido abertas, fazendo que fosse possível e necessária uma releitura sem ironia da música de Chico Buarque. Desse modo, a interpretação de Caetano para ‘Carolina’. Poderia ser vista mais como um pastiche no qual a música fora simplesmente assimilada a um estilo pessoal entre muitos outros, sem nenhuma pretensão de transcendê-la. A controvérsia ao redor de ‘Carolina’ nos proporciona um bom exemplo das ambiguidades da música tropicalista, na qual a fronteira entre sinceridade e sarcasmo e cumplicidade e crítica, muitas vezes não era clara.” (Christopher Dunn, Brutalidade jardim)

O texto do Caetano vale a leitura:

“Nelson Rodrigues disse que o povo brasileiro e a janela e o povo brasileiro na janela etc. etc. E Nelson Rodrigues é um poeta laureado, condecorado. Entretanto as janelas, mesmo no Brasil, têm servido para fins menos líricos do que aquelas aos quais ele se refere. Atenção para as janelas no alto. As feras do Saldanha. A avenida Presidente Vargas. O bicho brasileiro na janela. Eu gostaria de contar ao Chico Buarque de Hollanda a história da Carolina, de dizer como a história da Carolina é parecida com a história da Gatinha Manhosa. Eu um dia pensei que a música brasileira estava num beco sem saída. Então eu saí da música brasileira e caí na vida, como acontece frequentemente com mocinhas sergipanas que vêm morar em Salvador. E aí eu me apaixonei pela gatinha manhosa e, algum tempo depois, com o meu coração volúvel do signo de Leão, pela Carolina. Eu gostaria de contar, mas não tenho talento para narrar coisas tim-tim por tim-tim. Oh God, please, don’t let me misunderstood. Devagar. Na letra de um de seus sambas Chico Buarque contrapõe a lua e a televisão, a rua e a sala. Digamos que eu, vivendo na miséria cultural brasileira, estou nessa sala, vendo televisão. A minha irmã Carolina está na janela vendo a rua e o meu amigo Chico está na rua, vendo a lua. A minha namorada está no vídeo, eu estou na sala, meu sogro Chico está na rua. Eu estou no vídeo,a minha namorada Carolina está no vídeo e o meu inimigo Chico está no vídeo. Eu estou na rua, a minha desconhecida Carolina está na janela e o meu amigo Chico está no vídeo. Permutações simples de três termos complexos. Nelson Rodrigues está no vídeo. Impermutával. O fato é que eu já não penso que a música brasileira está num beco sem saída. Ao contrário, acho que só tem havido saídas. E nada mais. A tropicália tinha uma musa (uma senhora cujo nome eu não posso dizer) e uma antimusa (a Carolina). Talvez se eu dissesse o nome da musa alguém viesse a entender o significado da antimusa. Mas já não há saídas demais. Não é possível nenhuma tropicália. Não procure entender nada. Chega de confusão. Sabe o que é que eu acho? – eu acho que você não precisa saber da piscina, nem da margarina, nem da Carolina. Eu gosto de Jorge Ben, de Roberto Carlos, de Chico Buarque de Hollanda, de Caymmi, de “Chuvas de Verão”, de “Nazarin”, de diversas coisas. Don’t Think twice, it’s al right mo, I’m only bleeding. Podemos ser amigos, simplesmente; coisas do amor nunca mais. Eu bem avisei: vai acabar. De tudo lhe dei para aceitar. Mil versos cantei para agradar. E agora não sei como explicar. Lá fora, amor: eu vi em Kings Road, no “Picasso” eu vi a inglesa deslumbrante. Ela veio e sentou na mesma mesa que eu e na minha frente. Ela nem me viu. Usou meu fósforo e, quando vagou uma outra mesa, ela se mudou para lá. Eu fiquei pequenininho cantando Carolina bem baixinho como em brasileiro. Tenho certeza que nem as crianças que cantaram esse samba nos programas de calouros da televisão souberam tão profundamente como eu a beleza da Carolina. Eu sou brasileiro, os meus olhos costumam se encher de água, eu sou humilde e miserável, estou na janela. Como na Alfama, em Santo Amaro, Évora, Cachoeira. Eu sou amável e terno, medroso. Eu sou lírico como Vinícius de Moraes, como Erasmo Carlos. Eu sou manhoso e dengoso. Não há salvação para mim. Nelson Rodrigues é um poeta laureado. Condecorado.” (Caetano Veloso, O mundo não é chato)

A entrevista com o Chico n’O pasquim:

“Sérgio – A chamada música popular brasileira a partir de uma certa época sofreu uma série de coisas e você ficou como símbolo de uma determinada tendência. E o Caetano Veloso e o Gil, símbolos de outra tendência. Que é que você acha dessas duas figuras: Caetano Veloso e Gilberto Gil?

Chico Buarque – Aí a conversa vai se estender muito. O Gil e o Caetano eu conheço há muito tempo, antes desse negócio de tropicalismo, do movimento deles. Eu sempre adorei o que eles faziam e o que eles fazem, embora, ultimamente, o que eles têm feito, só uma coisa ou outra. Agora, essa espécie de ruptura, de opção que foi criada no público, não digo que foram eles que criaram, mas toda a divulgação que foi criada em torno do movimento deles. Foi uma coisa que eu enfrentei um pouco antes de ir embora, enfrentei com muita dor. Na época do festival da Record eu tinha uma música chamada Benvinda. Eu vi que estava toda a opinião pública dividida de uma maneira que não era real. Os jornais diziam: amanhã a grande decisão entre a revolução dos Mutantes e o tradicionalismo de Chico Buarque. Nesse festival eles nem estavam, eram os Mutantes que representavam o movimento tropicalista. Eu nunca quis ser tradicional e nunca pretendi ser, apesar de fazer samba, entende? Criaram uma imagem minha que foi muito ruim pra mim, me chateou pessoalmente. Não sei quem foi que resolveu fazer isso. Não sei de que forma eles contribuíram para isso. A partir daí eu perdi um pouco o contato com eles. Eu só quero dizer que eu não sou responsável sobre tudo isso e eu nunca quis levantar uma bandeira em nome da tradição da música e da integridade da música popular brasileira. Muito pelo contrário.

Fortuna – O Caetano Veloso já declarou que a interpretação dele da Carolina não é irônica. Você acha que ela é irônica ou não?

Chico Buarque – Também já é outra coisa de conversa. Depois dessa confusão toda que deu, da época desse festival e tudo, eu perdi o contato com eles, eu perdi a amizade deles. Então eu não entendo mais se o Caetano é o mesmo que eu conheci, que saía comigo e a gente cantava imitando João Gilberto, ele bebia e tinha mania de subir em árvore e tal. E o Gil, que eu conhecia mais ainda. Eu tinha realmente uma amizade muito grande com eles, contato mesmo. Foi uma coisa de um mês, dois meses que eu não os vi e que de repente apareceu todo esse movimento de tropicalismo que me assustou um pouco, porque veio um pouco em cima de mim, a imprensa toda me pegou pra bode expiatório. É claro que a música tem que evoluir, eu sou a favor de tudo que é evolução. Se eles tivessem me avisado antes: olha, o negócio é esse, talvez eu tivesse dito: é verdade. Inclusive eu dou razão. Eu gosto de muita coisa do tropicalismo, eu posso gostar mais de uma coisa, menos de outra. Por isso que eu digo que, na interpretação de Carolina, eu fico sem saber o que há entre a pessoa dele e o disco gravado. Eu ouvi o disco uma vez só e confesso que não gostei e não quis ouvir mais porque é um problema que eu não estava a fim de ficar pensando: será que ele gravou de boa-fé ou de má-fé? Não dá, eu tenho que conversar com ele, um dia ele me explica isso. Quem sabe um dia a gente vai se entender, porque pelo disco não dá, contracapa não tem e pelas entrevistas não dá pra concluir.

Chico Buarque – Agora chegou o Maciel, que pode ser mais esclarecedor a esse respeito. O Caetano que eu conheço, como o Gil que eu conheço, não é aquele negócio que as pessoas falam: o bom é o Caetano e o Gil de antes, o de agora eu não gosto, e tal. Não é isso que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que eles são os mesmos essencialmente, o Caetano não mudou. Aquele lirismo do Coração Vagabundo é o mesmo que tem no Baby e Objeto não identificado, com a diferença que ele faz a crítica de todo o lirismo do negócio que ele está cantando. Acontece que a coisa pega pelo lirismo e não pela crítica. Carolina entra nessa coisa, é uma coisa muito ambígua. A intenção dele pode ser inclusive de crítica, e não a mim, pessoalmente, a todo um espírito, a todo um modo de gostar de música brasileira. Eu acho que pode ser isso, mas é uma coisa que eu nunca me perguntei muito porque eu achei que não valia a pena ficar ouvindo a música e ficar dizendo: ele gravou assim ou assado.

Luís Carlos Maciel – Eu queria contar pra você, Chico, eu não sei se você sabe que quando o disco do Caetano saiu muita gente começou a falar: ele está fazendo crítica ao lirismo do Chico e tal. Eu escrevi um negócio que dizia que eu achava que não era absolutamente nada disso, e o que o Caetano tinha querido fazer era uma coisa absolutamente simples e absolutamente sincera. Depois que saiu esse negócio publicado eu recebi uma carta do Caetano, que eu tenho guardada, dizendo que tinha ficado contentíssimo porque finalmente aquilo que ele tinha querido fazer tinha sido compreendido. O que ele tinha querido fazer era exatamente isso. Da mesma maneira que quando ele canta aquele negócio do Fernando Lôbo, Chuvas de Verão, também não tem intenção crítica. São músicas que ele é que quis interpretar com a sinceridade que ele podia. Ele diz assim: eu acho muito chato que, no Brasil, pelo fato de eu ter feito um movimento, eu fiquei proibido de cantar francamente, com sinceridade. Qualquer coisa que eu faça agora todo mundo pensa que eu tenho intenção crítica.

Chico Buarque – O Caetano foi crítico de cinema, ele é crítico. Eu aceitei a crítica, não que seja direta a mim, mas a maneira como a música atinge o público. O problema que entrou aí e que foi a origem da discussão é porque, a mim, me pegou de uma maneira muito especial. Como eu conhecia muito eles e era muito amigo deles, quando começou o movimento me pegaram muito pra pele, não eles, mas o movimento. Saía entrevista dizendo isso tudo e aquilo, depois desmentiam, aí eu me cansei muito dessa discussão de querer saber se o Caetano e Gil gostam de mim ou não gostam de mim. Eu ouvi uma vez Carolina, eu não gostei. Achei que ele cantou muito perto do microfone e o violão está mal tocado, é uma questão muito técnica e boba, mas eu não quis entrar muito no fundo. Só isso: me cansei dessa discussão. Eu já sofri com isso dois anos atrás. Eu repito mais uma vez: eles eram muito amigos meus e quem brigou comigo foram eles, brigou não, quem se separou de mim foram eles. Eu nunca recusei uma aproximação, uma discussão sobre música ou sobre o que eles estavam fazendo. Eu estou aberto a tudo que é experiência e sempre estive. Quando houve o movimento ridículo contra a guitarra elétrica, porque ela estava ameaçando o samba, e tal, fizeram uma passeata e ficaram zangados comigo porque eu não levei a sério o negócio. Naquela época o Gil era desse movimento de samba puro, sem guitarra, brigava muito com Roberto Carlos. Eu nunca levei a sério esse negócio. Eu não sou contra a guitarra elétrica só que eu até agora sempre usei violão e gosto de violão, e acabou. O que não pode é essa radicalização que aconteceu antes em meu favor, contra a minha vontade. Tinha uma época que era: o Chico Buarque é que faz a música séria porque faz samba puro. Depois houve a radicalização contra, né? Porque a era da comunicação, hoje em dia, os astronautas etc. Aí eu acho que não dá.”

 

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