Review de show: projeto Mwangaza

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Por que diabos a classe média brasileira sente repulsa pelas religiões africanas, medo de tudo que é marginal, revolta intelectual contra a pornografia do funk carioca ou contra a agressividade do rap e, no entanto, paga de bom grado um couvert de 30 reais ou um ingresso de 120 para ver samba genérico como se fosse patrimônio da humanidade, um samba mal tocado e de repertório formado por aquelas mais repetidas que Chaves no SBT, é um mistério mais insolúvel que o porquê da vida na Via Láctea.

O projeto Mwangaza, duo composto por Marissol Mwaba e Dandara Manoela, tocou para uma casa bem cheia para este dia 30 de dezembro no Bluebird, bar situado (e há muito tempo desejado) na avenida Mauro Ramos aqui em Floripa. Tocou não, “declamou”, talvez seja melhor palavra pra dizer, dado o silêncio de reunião de íntimos em casa cheia de carinho que dominou toda apresentação e atenção da plateia. A razão da existência do silêncio e da atenção pode ter várias explicações. Meu voto vai para a pureza, docemente amedrontadora, que as duas artistas transmitem.

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Pela juventude e espontaneidade delas eu cheguei a sentir que estava diante de duas colegas do colégio, sem com isso querer dizer de maneira nenhuma que o som tinha algo de “imaturo” – como se o que crianças e adolescentes fizessem fosse menos completo do que o que os adultos fingem fazer. É que o frescor dos sorrisos e da alegria, a espontaneidade dos cantos se completando, a presença de duas crianças fazendo percussão em algumas músicas, muito remetia a nascimento e novidade.

Marissol e Dandara são duas cantoras negras que encarnam a música negra. O que isso quer dizer é bem simples: as notas escolhidas para abertura de vozes tem um colorido afro; o ritmo é rico e simples não tendo nada a ver com a deficiência da cultura branca urbana a tocar tudo como se fosse “Knocking on  heavens door”; a empostação do corpo e da voz são, além de inteligentes, algo que destoa do padrão The Voice permanecendo “ao rés do chão”; a alegria milagrosa, a despeito do sofrimento e do não reconhecimento de sua raça, é regra, passando muito longe do culto à introspecção e melancolia que fazem a persona dos trágicos heróis dos brancos (escola James Dean, Chet Baker e Jeff Buckley).

As composições eram próprias ou de amigos próximos e a sensação era a de estar vendo um show extremamente sofisticado, artístico, por 10zão. A insistência de artistas em questões políticas e de apoio institucional desemboca em eventos ou manifestações como essa: ali a arte acontece, na sua frente. Você não está no Louvre, classe média, está na sua cidade, tomando chopp artesanal e vendo duas meninas esbofetearem a arte dita consagrada em nome do agora.

Vida longa ao Mwangaza: que suas letras de positividade, novidade e amor só tenham começado a se espalhar. Torço para as ver no Rock in Rio e nas periferias. Nesse show me senti vendo a vida se criando ao vivo, com a doçura necessária para sair do bar cheio de música e amor.

 

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