História e vanguarda em Triste Bahia (Caetano Veloso – Transa)

“A composição mais ambiciosa de Transa foi ‘Triste Bahia’, baseada em ‘A cidade da Bahia’, um soneto do século XVII do poeta barroco Gregório de Matos, que, por sua vez, era uma paródia de um soneto do poeta português Francisco Rodrigues Lobo. Um notório satirista da sociedade colonial baiana, especialmente da elite mercantilista e do clero, Gregório de Matos acabou sendo exilado para a colônia portuguesa de Angola, de onde vinham os escravos e um local conveniente para enviar excomungados e críticos. Em ‘A cidade da Bahia’, Matos lamenta sarcasticamente a corrupção e a decadência da capital baiana sob o controle de colonos avarentos e comerciantes portugueses. O soneto alegoriza a Bahia como uma cidade em ruínas após o declínio da indústria de açúcar.

‘Triste Bahia’, de Caetano, também é alegórica, apresentando uma colagem de diversos referenciais históricos que nunca se consolidam em uma totalidade coesa. No entanto, diferentemente do soneto de Gregório de Matos, ‘Triste Bahia’ vai além do olhar melancólico, escavando as ‘ruínas da história’ e expondo as fundações africanas da cultura e da sociedade baianas. Nenhuma região do Brasil foi tão dependente de escravos africanos como a Bahia. Após a abolição, ex-escravos e seus descendentes ocuparam posições subalternas na economia local, ao passo que manifestações da cultura afro-baiana, como o candomblé e a capoeira, eram depreciadas, sujeitas ao controle oficial e muitas vezes suprimidas. Até 1976, por exemplo, os terreiros de candomblé em Salvador precisavam ser registrados na polícia e obter autorização para realizar festivais públicos. ‘Triste Bahia’ é mais bem interpretada como uma colcha de retalhos sonora, composta de fragmentos musicais e poéticos heterogêneos. Seu referencial espacial é a Bahia, em especial Salvador e o Recôncavo, a região onde Caetano nasceu. O escopo temporal é amplo, incluindo a era colonial, o século XIX e o presente.

A perspectiva histórica multitemporal encontra eco nas propriedades formais da música, que consistem em várias camadas de polirritmos superpostos. Começando com as notas em staccato de um berimbau e uma salva de atabaques, a introdução evoca os rituais de convocação que dão início à dança/luta de capoeira. Caetano canta as primeiras estrofes do soneto de Gregório de Matos com a lenta pulsação de um ritmo de capoeira acompanhada por um violão.O lamento é abruptamente interrompido por uma referência a Vicente Pastinha, o aclamado mestre de capoeira de Angola: ‘Pastinha já foi à África/ pra mostrar a capoeira do Brasil.’ Nesse verso, Caetano se refere à viagem de Pastinha à África em 1966 para representar o Brasil no primeiro Festival Internacional de Arte Negra, em Dakar, Senegal.

Após a referência a Pastinha, o ritmo é intensificado e a elegia barroca à ‘triste Bahia’ dá lugar ao cântico de capoeira. Nesse ponto, Caetano cita diretamente a famosa ladainha de Pastinha que expressa desilusão em relação ao mundo: ‘Eu já vivo tão cansado/ de viver aqui na terra/ minha mãe, eu vou pra Lua/ eu mais a minha mulher/ vamos fazer um ranchinho/ todo feito de sapé”. O verso presta homenagem a Pastinha, mas também insinua o próprio sentimento de alienação em que Caetano vivia no exílio. O ritmo se acelera com o acréscimo de mais camadas rítmicas, incluindo o ijexá (um ritmo utilizado por grupos de percussão afro-baianos chamados afoxés) e o samba-de-roda. Caetano canta breves fragmentos de músicas de afoxé e sambas tradicionais baianos. Em um ponto, ele cita um cântico litúrgico católico à Virgem Maria, seguido de uma referência a uma ‘bandeira branca enfiada em pau forte’, símbolo comum em terreiros de candomblé. No final da música, as camadas de ritmos são velozes e abundantes, lembrando a atmosfera de um candomblé, quando os devotos começam a entrar em transe e receber os orixás. ‘Triste Bahia’, de Caetano, representa o que Robert Stam chamou de ‘estética do palimpsesto’, um conjunto em camadas de traços culturais superpostos ou justapostos de diferentes épocas e locais. Apesar de começar com o lamento de Gregório de Matos pela Bahia, a música de Caetano sugere a possibilidade de recuperação por meio das expressivas culturas afro-brasileiras.”

(Christopher Dunn – Brutalidade jardim)

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