Desvendando os Cantos do Matita Perê #3

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Paul Klee – Refuge

Tal como a música, a poesia brinca de dissonâncias  e assonâncias. Ao juntar palavras, um poema costuma brincar (em maior ou menor grau) com os sons das palavras e também com a sutileza da relação de proximidade dos significantes. O exemplo mais emblemático disso no livro pra mim é o canto 98. Ali, temas como suavidade/energia, crença/diabolicidade, presença/ausência, concretude/metafísica explodem em uma musicalidade que pretendi própria.

Cada estrofe tem a sua musicalidade: a estrofe 3, por exemplo e em face do lirismo musical das duas primeiras, é bastante truncada propositalmente, ao passo que a estrofe 4 é exageradamente simplória, um tanto prosaica. Também há choques semânticos que visam ressaltar alguns efeitos como, na estrofe 2, o Matita Perê sumido ter como uma espécie de consequência lógica ele ser ouvido e isso ser, como no primeiro verso, algo límpido.

Há algo do trágico no livro também, aqui afirmado na primeira estrofe: o Matita só aparece depois que Deus se esconde e Deus se esconde porque, simploriamente, o Matita floresce. Mas o Matita floresce de raiva e ardor (a primeira palavra profana, a segunda religiosa) e, após Deus sumir e Matita ficar só, é justo o amor que resta. Matita ficou sozinho, mas só lhe restou, justo, o amor.

Da segunda para a terceira estrofe há um jogo pra mim muito interessante, pois, logo após o Matita Perê sumir, Deus reaparece, mas como dono de todos os segredos. Essa indeterminação é em seguida resolvida na afirmação de que “todos os tempos são carne”. Esse verso pode ser tido como central, pois desde que o livro estava sendo feito eu criei a brincadeira de que os cantos seriam algo como Guimarães Rosa indo ao baile funk – a união de uma sabedoria sagrada e metafísica, com a carne profanando a cultura em dança e violência.

Ninguém é dono da leitura de um poema e essas são só algumas ideias. Outras podem se desdobrar, melhores que estas. Mas este é talvez o meu poema preferido da coisa que mais gostei de ter feito.

Canto 98 do Matita Perê.

 

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