Impublicáveis no Face#2

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Isso e o idealismo da “verdade tirada da experiência”:

“É típico dessa inteligência francesa de esquerda – como também da inteligência russa correspondente – que sua função positiva derive inteiramente de um sentimento de obrigação, não para com a revolução, mas para com a cultura tradicional. Sua produção coletiva, na medida em que é positiva, aproxima-se da dos conservadores. Política e economicamente, porém, é preciso sempre contar, nesse autores, com o perigo da sabotagem.

“A característica de todas essas posições burguesas de esquerda é a sua irremediável vinculação entre moral idealista e prática política. Certos elementos centrais do surrealismo e da tradição surrealista tornam-se compreensíveis somente pelo contraste com esses pobres compromissos da ‘consciência moral’. Até agora, não se fez grande coisa para assegurar essa compreensão. Era por demais irresistível a tentação de tomar, num inventário do esnobismo, o satanismo de um Rimbaud e de um Lautréamont como uma contrapartida do l’art pour l’art. Se, porém, decidirmos a transcender essa fachada romântica, encontraremos aí algo de aproveitável. Descobriremos que o culto do mal é um aparato, por mais romântico que seja, de desinfecção e isolamento da política, contra todo diletantismo moralizante.” (p.30)

“Agora – interessá-los-á tanto mais saber até que ponto uma digressão sobre a poesia poderá esclarecer as coisas. Pois o que é o programa dos partidos burgueses senão uma péssima poesia primaveril, saturada de metáforas? O socialista vê ‘o futuro mais belo dos nossos filhos e netos’ no fato de que todos agem ‘como se fossem anjos’, todos possuem tanto ‘quanto se fossem ricos’ e todos vivem ‘como se fossem livres’. Em parte alguma vê sequer um vestígio de anjos, de riqueza, de liberdade. Apenas imagens. E qual é o arcabouço imagético desses poetas da social-democracia, seu gradus ad Parnassum [graus ao piano]? O otimismo. Respiramos já outra atmosfera no texto de Naville, que põe na ordem do dia a ‘Organização do pessimismo’. Em nome dos seus amigos literatos, ele lança um ultimato, diante do qual esse otimismo inconsciente de diletantes não pode deixar de revelar suas verdadeiras cores: onde estão os pressupostos da revolução? Na transformação das opiniões ou na transformação das relações externas? É essa a questão cardinal, que determina a relação entre a moral e a política e que não admite qualquer camuflagem. O surrealismo aproximou-se sempre cada vez mais de uma resposta comunista a essa pergunta. E isto significa: pessimismo absoluto. Sim, e sem exceção. Desconfiança acerca do destino da literatura, desconfiança acerca do destino da liberdade, desconfiança acerca do destino da liberdade europeia, e principalmente desconfiança, desconfiança e desconfiança com relação a qualquer forma de entendimento mútuo: entre as classes, entre os povos, entre os indivíduos.

(…)

“Organizar o pessimismo significa simplesmente extirpar a metáfora moral da esfera da política, e descobrir no espaço da ação política o espaço completo da imagem. Mas esse espaço da imagem não pode mais absolutamente ser medido de forma contemplativa. Se a dupla tarefa da inteligência revolucionária é derrubar a hegemonia intelectual da burguesia e estabelecer um contato com as massas proletárias, ela fracassou quase inteiramente na segunda parte dessa tarefa, pois esta não pode mais ser realizada contemplativamente. Isso não impediu a grande maioria de conceber continuamente essa tarefa como se a opção contemplativa fosse possível, e de reclamar o advento de poetas, pensadores e artistas proletários. (…) Na verdade, trata-se muito menos de fazer do artista de origem burguesa um mestre em ‘arte proletária’ do que de fazê-lo funcionar, mesmo à custa de sua eficácia artística, em lugares importantes desse espaço de imagens. Não seria talvez a interrupção de sua ‘carreira artística’ uma parte essencial dessa função?” (ps.34-5)

(Walter Benjamin, O surrealismo – Obras escolhidas I, nova edição)

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