A história de Sol Negro (Caetano)

Descobri esse fim de semana a história da música Sol Negro, uma das minhas preferidas do Caetano. Vale ler e ouvir ou ouvir e ler.

“Em meados de 64, quando recebeu o convite para organizar um show de música popular brasileira, na inauguração do Teatro Vila Velha, Caetano já sabia que podia contar com boa parte da turma de amigos que se reunia aos sábados na casa de Maria Muniz [atriz]. (…)

[João Augusto] Azevedo conheceu os irmãos Velloso no verão daquele mesmo ano, após uma apresentação do Teatro dos Novos, no ginásio de Santo Amaro da Purificação. O diretor ficou impressionado com Maria Bethânia, especialmente depois de ouvi-la cantar. (…)

Intitulado ‘Nós, Por Exemplo’, o show que ocupou o palco do Vila Velha, na noite de 22 de agosto de 64, tinha uma intenção bem definida: introduzir um grupo de jovens compositores, cantores e instrumentistas, em maior ou menor medida influenciados pela bossa nova, com pretensões de renovar a música popular brasileira. Provando que essa ambição não era descabida, o show acabou ofuscando todas as outras atrações da semana comemorativa. No dia seguinte, era o assunto das conversas nas faculdades e bares da cidade.

O número mais aplaudido da noite foi Sol Negro, uma espécie de canção-lamento que Caetano compôs especialmente para Bethânia e Gal cantarem juntas no show, explorando o belo contraste das duas vozes (esse mesmo duo foi incluído no primeiro álbum gravado por Bethânia, para a RCA, no ano seguinte).”

(Carlos Calado, Tropicália: a história de uma revolução musical)

 

Review de show: projeto Mwangaza

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Por que diabos a classe média brasileira sente repulsa pelas religiões africanas, medo de tudo que é marginal, revolta intelectual contra a pornografia do funk carioca ou contra a agressividade do rap e, no entanto, paga de bom grado um couvert de 30 reais ou um ingresso de 120 para ver samba genérico como se fosse patrimônio da humanidade, um samba mal tocado e de repertório formado por aquelas mais repetidas que Chaves no SBT, é um mistério mais insolúvel que o porquê da vida na Via Láctea.

O projeto Mwangaza, duo composto por Marissol Mwaba e Dandara Manoela, tocou para uma casa bem cheia para este dia 30 de dezembro no Bluebird, bar situado (e há muito tempo desejado) na avenida Mauro Ramos aqui em Floripa. Tocou não, “declamou”, talvez seja melhor palavra pra dizer, dado o silêncio de reunião de íntimos em casa cheia de carinho que dominou toda apresentação e atenção da plateia. A razão da existência do silêncio e da atenção pode ter várias explicações. Meu voto vai para a pureza, docemente amedrontadora, que as duas artistas transmitem.

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Pela juventude e espontaneidade delas eu cheguei a sentir que estava diante de duas colegas do colégio, sem com isso querer dizer de maneira nenhuma que o som tinha algo de “imaturo” – como se o que crianças e adolescentes fizessem fosse menos completo do que o que os adultos fingem fazer. É que o frescor dos sorrisos e da alegria, a espontaneidade dos cantos se completando, a presença de duas crianças fazendo percussão em algumas músicas, muito remetia a nascimento e novidade.

Marissol e Dandara são duas cantoras negras que encarnam a música negra. O que isso quer dizer é bem simples: as notas escolhidas para abertura de vozes tem um colorido afro; o ritmo é rico e simples não tendo nada a ver com a deficiência da cultura branca urbana a tocar tudo como se fosse “Knocking on  heavens door”; a empostação do corpo e da voz são, além de inteligentes, algo que destoa do padrão The Voice permanecendo “ao rés do chão”; a alegria milagrosa, a despeito do sofrimento e do não reconhecimento de sua raça, é regra, passando muito longe do culto à introspecção e melancolia que fazem a persona dos trágicos heróis dos brancos (escola James Dean, Chet Baker e Jeff Buckley).

As composições eram próprias ou de amigos próximos e a sensação era a de estar vendo um show extremamente sofisticado, artístico, por 10zão. A insistência de artistas em questões políticas e de apoio institucional desemboca em eventos ou manifestações como essa: ali a arte acontece, na sua frente. Você não está no Louvre, classe média, está na sua cidade, tomando chopp artesanal e vendo duas meninas esbofetearem a arte dita consagrada em nome do agora.

Vida longa ao Mwangaza: que suas letras de positividade, novidade e amor só tenham começado a se espalhar. Torço para as ver no Rock in Rio e nas periferias. Nesse show me senti vendo a vida se criando ao vivo, com a doçura necessária para sair do bar cheio de música e amor.

 

A polêmica da Carolina de Chico com Caetano

Textos sobre certa polêmica entre Caetano e Chico a respeito da versão do primeiro pra “Carolina” (Chico).

Primeiro o contexto, depois o texto do Caetano. Também a versão do Caetano no Spotify (com bem mais qualidade que as do Youtube). Mais abaixo a entrevista do Chico.

“A música mais controversa do álbum nem era uma composição de Caetano, mas uma versão despojada, de certa forma letárgica, de ‘Carolina’, de Chico Buarque, uma bossa romântica bastante orquestrada apresentada em seu terceiro álbum. Como resultado do incidente no festival de 1968 da TV Record, no qual Gil supostamente vaiou sua música, Chico Buarque na época tinha se distanciado dos tropicalistas. Os críticos interpretaram a versão de Caetano para ‘Carolina’ como uma paródia do lirismo de Chico Buarque. Em uma entrevista publicada n’O Pasquim, Chico expressou certa irritação com referência ao conflito real ou imaginado com os tropicalistas, argumentando que nunca foi um defensor ortodoxo da pureza na música popular brasileira. Explicou que não gostou da interpretação de Caetano para ‘Carolina’ basicamente por razões técnicas, mas que não tinha como dizer se de fato ela representava uma crítica. Fica claro na entrevista, contudo, que a versão de Caetano tinha irritado Chico.

(…)

O próprio Caetano escreveu um texto enigmático para O Pasquim, no qual tentava esclarecer suas intenções, mas o texto não foi publicado na época. No artigo, ele propunha que a figura da Carolina na música de Chico poderia ser entendida como a ‘antimusa’ da Tropicália, simbolizando o tipo de lirismo romântico que o movimento buscava criticar. No entanto, Caetano argumentou que o momento tropicalista já tinha passado e que múltiplas avenidas criativas haviam sido abertas, fazendo que fosse possível e necessária uma releitura sem ironia da música de Chico Buarque. Desse modo, a interpretação de Caetano para ‘Carolina’. Poderia ser vista mais como um pastiche no qual a música fora simplesmente assimilada a um estilo pessoal entre muitos outros, sem nenhuma pretensão de transcendê-la. A controvérsia ao redor de ‘Carolina’ nos proporciona um bom exemplo das ambiguidades da música tropicalista, na qual a fronteira entre sinceridade e sarcasmo e cumplicidade e crítica, muitas vezes não era clara.” (Christopher Dunn, Brutalidade jardim)

O texto do Caetano vale a leitura:

“Nelson Rodrigues disse que o povo brasileiro e a janela e o povo brasileiro na janela etc. etc. E Nelson Rodrigues é um poeta laureado, condecorado. Entretanto as janelas, mesmo no Brasil, têm servido para fins menos líricos do que aquelas aos quais ele se refere. Atenção para as janelas no alto. As feras do Saldanha. A avenida Presidente Vargas. O bicho brasileiro na janela. Eu gostaria de contar ao Chico Buarque de Hollanda a história da Carolina, de dizer como a história da Carolina é parecida com a história da Gatinha Manhosa. Eu um dia pensei que a música brasileira estava num beco sem saída. Então eu saí da música brasileira e caí na vida, como acontece frequentemente com mocinhas sergipanas que vêm morar em Salvador. E aí eu me apaixonei pela gatinha manhosa e, algum tempo depois, com o meu coração volúvel do signo de Leão, pela Carolina. Eu gostaria de contar, mas não tenho talento para narrar coisas tim-tim por tim-tim. Oh God, please, don’t let me misunderstood. Devagar. Na letra de um de seus sambas Chico Buarque contrapõe a lua e a televisão, a rua e a sala. Digamos que eu, vivendo na miséria cultural brasileira, estou nessa sala, vendo televisão. A minha irmã Carolina está na janela vendo a rua e o meu amigo Chico está na rua, vendo a lua. A minha namorada está no vídeo, eu estou na sala, meu sogro Chico está na rua. Eu estou no vídeo,a minha namorada Carolina está no vídeo e o meu inimigo Chico está no vídeo. Eu estou na rua, a minha desconhecida Carolina está na janela e o meu amigo Chico está no vídeo. Permutações simples de três termos complexos. Nelson Rodrigues está no vídeo. Impermutával. O fato é que eu já não penso que a música brasileira está num beco sem saída. Ao contrário, acho que só tem havido saídas. E nada mais. A tropicália tinha uma musa (uma senhora cujo nome eu não posso dizer) e uma antimusa (a Carolina). Talvez se eu dissesse o nome da musa alguém viesse a entender o significado da antimusa. Mas já não há saídas demais. Não é possível nenhuma tropicália. Não procure entender nada. Chega de confusão. Sabe o que é que eu acho? – eu acho que você não precisa saber da piscina, nem da margarina, nem da Carolina. Eu gosto de Jorge Ben, de Roberto Carlos, de Chico Buarque de Hollanda, de Caymmi, de “Chuvas de Verão”, de “Nazarin”, de diversas coisas. Don’t Think twice, it’s al right mo, I’m only bleeding. Podemos ser amigos, simplesmente; coisas do amor nunca mais. Eu bem avisei: vai acabar. De tudo lhe dei para aceitar. Mil versos cantei para agradar. E agora não sei como explicar. Lá fora, amor: eu vi em Kings Road, no “Picasso” eu vi a inglesa deslumbrante. Ela veio e sentou na mesma mesa que eu e na minha frente. Ela nem me viu. Usou meu fósforo e, quando vagou uma outra mesa, ela se mudou para lá. Eu fiquei pequenininho cantando Carolina bem baixinho como em brasileiro. Tenho certeza que nem as crianças que cantaram esse samba nos programas de calouros da televisão souberam tão profundamente como eu a beleza da Carolina. Eu sou brasileiro, os meus olhos costumam se encher de água, eu sou humilde e miserável, estou na janela. Como na Alfama, em Santo Amaro, Évora, Cachoeira. Eu sou amável e terno, medroso. Eu sou lírico como Vinícius de Moraes, como Erasmo Carlos. Eu sou manhoso e dengoso. Não há salvação para mim. Nelson Rodrigues é um poeta laureado. Condecorado.” (Caetano Veloso, O mundo não é chato)

A entrevista com o Chico n’O pasquim:

“Sérgio – A chamada música popular brasileira a partir de uma certa época sofreu uma série de coisas e você ficou como símbolo de uma determinada tendência. E o Caetano Veloso e o Gil, símbolos de outra tendência. Que é que você acha dessas duas figuras: Caetano Veloso e Gilberto Gil?

Chico Buarque – Aí a conversa vai se estender muito. O Gil e o Caetano eu conheço há muito tempo, antes desse negócio de tropicalismo, do movimento deles. Eu sempre adorei o que eles faziam e o que eles fazem, embora, ultimamente, o que eles têm feito, só uma coisa ou outra. Agora, essa espécie de ruptura, de opção que foi criada no público, não digo que foram eles que criaram, mas toda a divulgação que foi criada em torno do movimento deles. Foi uma coisa que eu enfrentei um pouco antes de ir embora, enfrentei com muita dor. Na época do festival da Record eu tinha uma música chamada Benvinda. Eu vi que estava toda a opinião pública dividida de uma maneira que não era real. Os jornais diziam: amanhã a grande decisão entre a revolução dos Mutantes e o tradicionalismo de Chico Buarque. Nesse festival eles nem estavam, eram os Mutantes que representavam o movimento tropicalista. Eu nunca quis ser tradicional e nunca pretendi ser, apesar de fazer samba, entende? Criaram uma imagem minha que foi muito ruim pra mim, me chateou pessoalmente. Não sei quem foi que resolveu fazer isso. Não sei de que forma eles contribuíram para isso. A partir daí eu perdi um pouco o contato com eles. Eu só quero dizer que eu não sou responsável sobre tudo isso e eu nunca quis levantar uma bandeira em nome da tradição da música e da integridade da música popular brasileira. Muito pelo contrário.

Fortuna – O Caetano Veloso já declarou que a interpretação dele da Carolina não é irônica. Você acha que ela é irônica ou não?

Chico Buarque – Também já é outra coisa de conversa. Depois dessa confusão toda que deu, da época desse festival e tudo, eu perdi o contato com eles, eu perdi a amizade deles. Então eu não entendo mais se o Caetano é o mesmo que eu conheci, que saía comigo e a gente cantava imitando João Gilberto, ele bebia e tinha mania de subir em árvore e tal. E o Gil, que eu conhecia mais ainda. Eu tinha realmente uma amizade muito grande com eles, contato mesmo. Foi uma coisa de um mês, dois meses que eu não os vi e que de repente apareceu todo esse movimento de tropicalismo que me assustou um pouco, porque veio um pouco em cima de mim, a imprensa toda me pegou pra bode expiatório. É claro que a música tem que evoluir, eu sou a favor de tudo que é evolução. Se eles tivessem me avisado antes: olha, o negócio é esse, talvez eu tivesse dito: é verdade. Inclusive eu dou razão. Eu gosto de muita coisa do tropicalismo, eu posso gostar mais de uma coisa, menos de outra. Por isso que eu digo que, na interpretação de Carolina, eu fico sem saber o que há entre a pessoa dele e o disco gravado. Eu ouvi o disco uma vez só e confesso que não gostei e não quis ouvir mais porque é um problema que eu não estava a fim de ficar pensando: será que ele gravou de boa-fé ou de má-fé? Não dá, eu tenho que conversar com ele, um dia ele me explica isso. Quem sabe um dia a gente vai se entender, porque pelo disco não dá, contracapa não tem e pelas entrevistas não dá pra concluir.

Chico Buarque – Agora chegou o Maciel, que pode ser mais esclarecedor a esse respeito. O Caetano que eu conheço, como o Gil que eu conheço, não é aquele negócio que as pessoas falam: o bom é o Caetano e o Gil de antes, o de agora eu não gosto, e tal. Não é isso que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que eles são os mesmos essencialmente, o Caetano não mudou. Aquele lirismo do Coração Vagabundo é o mesmo que tem no Baby e Objeto não identificado, com a diferença que ele faz a crítica de todo o lirismo do negócio que ele está cantando. Acontece que a coisa pega pelo lirismo e não pela crítica. Carolina entra nessa coisa, é uma coisa muito ambígua. A intenção dele pode ser inclusive de crítica, e não a mim, pessoalmente, a todo um espírito, a todo um modo de gostar de música brasileira. Eu acho que pode ser isso, mas é uma coisa que eu nunca me perguntei muito porque eu achei que não valia a pena ficar ouvindo a música e ficar dizendo: ele gravou assim ou assado.

Luís Carlos Maciel – Eu queria contar pra você, Chico, eu não sei se você sabe que quando o disco do Caetano saiu muita gente começou a falar: ele está fazendo crítica ao lirismo do Chico e tal. Eu escrevi um negócio que dizia que eu achava que não era absolutamente nada disso, e o que o Caetano tinha querido fazer era uma coisa absolutamente simples e absolutamente sincera. Depois que saiu esse negócio publicado eu recebi uma carta do Caetano, que eu tenho guardada, dizendo que tinha ficado contentíssimo porque finalmente aquilo que ele tinha querido fazer tinha sido compreendido. O que ele tinha querido fazer era exatamente isso. Da mesma maneira que quando ele canta aquele negócio do Fernando Lôbo, Chuvas de Verão, também não tem intenção crítica. São músicas que ele é que quis interpretar com a sinceridade que ele podia. Ele diz assim: eu acho muito chato que, no Brasil, pelo fato de eu ter feito um movimento, eu fiquei proibido de cantar francamente, com sinceridade. Qualquer coisa que eu faça agora todo mundo pensa que eu tenho intenção crítica.

Chico Buarque – O Caetano foi crítico de cinema, ele é crítico. Eu aceitei a crítica, não que seja direta a mim, mas a maneira como a música atinge o público. O problema que entrou aí e que foi a origem da discussão é porque, a mim, me pegou de uma maneira muito especial. Como eu conhecia muito eles e era muito amigo deles, quando começou o movimento me pegaram muito pra pele, não eles, mas o movimento. Saía entrevista dizendo isso tudo e aquilo, depois desmentiam, aí eu me cansei muito dessa discussão de querer saber se o Caetano e Gil gostam de mim ou não gostam de mim. Eu ouvi uma vez Carolina, eu não gostei. Achei que ele cantou muito perto do microfone e o violão está mal tocado, é uma questão muito técnica e boba, mas eu não quis entrar muito no fundo. Só isso: me cansei dessa discussão. Eu já sofri com isso dois anos atrás. Eu repito mais uma vez: eles eram muito amigos meus e quem brigou comigo foram eles, brigou não, quem se separou de mim foram eles. Eu nunca recusei uma aproximação, uma discussão sobre música ou sobre o que eles estavam fazendo. Eu estou aberto a tudo que é experiência e sempre estive. Quando houve o movimento ridículo contra a guitarra elétrica, porque ela estava ameaçando o samba, e tal, fizeram uma passeata e ficaram zangados comigo porque eu não levei a sério o negócio. Naquela época o Gil era desse movimento de samba puro, sem guitarra, brigava muito com Roberto Carlos. Eu nunca levei a sério esse negócio. Eu não sou contra a guitarra elétrica só que eu até agora sempre usei violão e gosto de violão, e acabou. O que não pode é essa radicalização que aconteceu antes em meu favor, contra a minha vontade. Tinha uma época que era: o Chico Buarque é que faz a música séria porque faz samba puro. Depois houve a radicalização contra, né? Porque a era da comunicação, hoje em dia, os astronautas etc. Aí eu acho que não dá.”

 

Entrevista com James Joyce

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Entrevista fictícia com James Joyce que escrevi em 2011. 

A escrita tem um espaço de liberdade muito grande. Defendo, e acho que essa é a minha cruz pra toda a vida, que parte do mal estar do nosso tempo no nosso país se origina da pouca atenção que damos aos livros. Na escrita você pode brincar de ser um entrevistador que não é Fausto Silva, mas Faust Silver e que entrevista um dos maiores escritores de todos os tempos, no caso James Joyce, como se ele só dissesse baboseiras (o que o escritor, no caso eu, supôs que em certo sentido poderia ser o que ele diria mesmo, do modo como escrevi). Parte da razão da nossa crise vem da espera de um salvador e da ausência de uma consciência individual (não confundir com um mero individualismo) que nos faça ver o tempo presente e o mundo nu e cru e não a espera por uma salvação coletiva e que fantasiosamente coincidirá com o nosso credo individual. Existe uma imensa ingenuidade e fragilidade na psique do brasileiro, a de ver o valor do outro pelo filtro do próprio valor e não o que antes se comunga por primeiro, depois a diferença. Como disse a cantora Björk em uma entrevista, se perguntassem no país dela “quem vai te salvar?” a maior parte das pessoas responderia “eu mesmo”. Nisso, repito, não se deve ver a defesa de um individualismo egoístico e sim a condição para que se deixe de fantasiar e ao invés se aprenda a viver em comunidade.

 

Faust Silver: Sr Joyce você acha que em 2011 ainda estarão lendo o seu Ulisses?
James Joyce: Com certeza não. No máximo estarão sonhando com o Finnegans Wake. De olhos bem abertos. E olha lá.

FS: E por que razão você acha que negarão a sua maior obra?
JJ: Porque minha maior obra não é essa. Está em andamento. Colocarei apenas elementos. Bebidas mais leves e ácidas (a cor é que é muito importante). Mil mantras curtos e grossos. Grandes bunkers elevados em que se esconda tudo, etc, etc Não me canso de ver o fato de que eu inventei o plágio.

FS: E a vanguarda então? Como que fica? Existirá?
JJ: Estão acertando os últimos detalhes. Apelidei-a de B.A. Mas a B.A. é como que um tom. Ponho homens e mulheres dançando em volta de B.A., em mil carrosséis de cavalos pretos, em grandes bandos de membros grandes, sem possibilidade de circulação. Abraçado à B.A. está um cantor com cara de sapo, baixinho, gordinho e de heróicas sutilezas em vozes femininas. Todos o acham um doce. Mas pus veneno dentro. Serve-se comidas pantanosas onde se enfiaram animais sujos benzidos em ervas. Tudo em escala micro. Grande será o horror.

FS: E porque você não descreveu estas visões?
JJ: Porque estou esperando a versão pirata. E estou com coceira na perna direita.

FS: Mas o gozo da original não lhe valeria a pena?
JJ: A maior das penas (a esferográfica) tenho-a nas minhas mãos.

FS: Compreendo. Haverá futuro então para a literatura?
JJ: Tão só e somente.

FS: Sr Joyce, o que você pensa da ficção científica?
JJ: O meu muito obrigado.

FS: Como você definiria a Europa em uma palavra?
JJ: Tichibum.

FS: James, existe a mulher perfeita?
JJ: Creio que não, mas a mais imperfeita é imensa, cheira à asa e tem e terá sempre amor no nome. É afeita a galhofas. Puns. E outros prazeres.

FS: Você acredita em inspiração ou apenas no fluxo de consciência?
JJ: Isto não é pergunta que se faça para uma bailarina profissional.

FS: De toda a história universal qual personalidade você mais admira?
JJ: Ficaria entre o asno e a borboleta.

FS: Algum filósofo?
JJ: Alguns.

FS: Quais?
JJ: Nenhuns.

FS: Para terminar, sr Joyce, para o senhor há algum acontecimento lamentável na história humana?
JJ: Talvez a letra Z de zebra, pela qual de vez em quando me vejo perdidamente enamorado.

 

Review do meu bar preferido de Curitiba: o Harvest Folk Bar

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Charge especial.

O valor de beber e mostrar para o mundo que se bebe e se tem como valor de virilidade, para homens e mulheres, a boemia, é um dos valores mais comuns da vida em cidade no Ocidente.

Na classe média a boemia se afasta, ao menos um pouco, dos valores quantitativos, que são quantas cervejas se aguenta, qual a cerveja mais barata, qual a comida mais barata e, em termos de gordura e sujeira, qual a comida mais desafiadora. Nesse classe há espaço para a aproximação dos valores qualitativos.

A cultura de se julgar um bar passa então pela qualidade dos serviços. E, aqui, eis um dos motes principais desse texto: há ingênuos (e eles são maioria) que se deixam levar por espetacularizações na hora de julgar um bar.

Conta muito mais pra esses amadores o excesso, que está presente desde as cores da fachada, passa pelo tamanho e pirotecnia da estrutura e vai até a quantidade de marcas de cerveja disponíveis – o que em si é algo legal, mas de que adianta quantidade de cervejas se não há um paladar que saiba as diferenciar?

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Tá carente? Tá contente? Vai pro Harvest. Recomendo.

 

Com isso chegamos num dos meus assuntos preferidos. O Harvest é um tipo de bar cuja grande diferença é um valor que os amadores não sabem apreciar: a autenticidade.

A estrutura é pequena, caseira. Não há grande quantidade de chopps (ainda). Mas a identidade e a atmosfera são as de um bar para boêmios realmente profissionais.

A comida, pra começar. Ela é deliciosa. É algo que realmente te faz ficar presente, tamanho o capricho e a identidade. Você come com gosto aqueles sanduíches e porções e tem toda uma riqueza de paladar pra apreciar – ao contrário de comer um gordo hambúrguer teen onde há exagero e nada de arte. Na comida do Harvest há arte.

O som, que é talvez o seu principal componente. Clássicos do folk, bandas contemporâneas do rock alternativo, bandas clássicas brasileiras e bandas paranaenses clássicas ou às vezes quase esquecidas pelo senso comum desfilam em nossas orelhas.

É possível desfrutar de momentos contemplativos e não só de algazarra no bar. Claro, a festa está também presente: o ponto é que este é o tipo de lugar que você pode ir sozinho ou acompanhado.

E há quase sempre sons ao vivo que, mais uma vez, fogem do lugar comum. O cara ou a mina que acham que som ao vivo bom se resume a bandas covers de AC/DC, Jorge Ben ou Strokes precisa urgentemente conhecer o Harvest.

Por ali passam muitos músicos, mas a marca é você ver um pouco de tudo, não raro gente muito talentosa e independente e nunca músicos mercadológicos.

Ali o som é maduro, feito num ambiente maduro.

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Meu amigo Anderson de Lima arrasando na guitarra jazz

 

Ou seja você pode tomar sua cerveja e conversar com seus amigos num tom calmo, valorizando quem você é e o que faz sem estridência e exibicionismo.

Um bar simples, mas de primeiro mundo, em resumo.

Quais as grandes características da classe média? Gostar de se enganar e gastar muito – por vezes as duas coisas ao mesmo tempo.

Num bar de verdade você gosta é da carne da vida. E neste bar você festa, você grita, mas você ao mesmo tempo respira e descansa. Ali é sua segunda casa. A energia é boa; calma e alta.

Brindo ao Harvest por ter me proporcionado alguns dos melhores momentos em Curitiba, sendo o meu bar preferido da cidade, o que não é pouca coisa nesse lugar.

Aconselho a todos os que quiserem uma vibe boa e uma cuca legal, sem nunca esquecer de tirar força e graça dos tragos da vida.

Mierda Bonita: resenha sobre a peça (Florianópolis)

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A arte contemporânea situa-se para muito além da leitura do senso comum, como na caricatura mais fácil que atribui a ela uma vontade de chocar por apenas chocar. No outro lado, no lado da plateia classe média padrão, vamos dizer assim, está um polo que resiste psicologicamente a ver o que não se considera preparado pra ver, e que por isso interpreta o comportamento do artista como algo exageradamente livre e irreal.

É este mesmo vasto nicho que considerará o que acontece nas favelas como algo em geral “extremamente violento” e para o qual existe a policia para reprimir o alastramento até a cidade – e pronto, está explicado. As razões para isso são claras: com esta atitude afasta-se um problema para, num mundo onde todos sabemos ser difícil viver, assim podermos cuidar dos nossos problemas, que já são muitos.

Compreende-se, assim, a dificuldade da arte e da cultura em nosso país. Elas pedem, ou parecem pedir, um esforço para além da esfera privada dos problemas extenuantes do cidadão comum. Pedem reflexão e disposição a uma espécie de terapia ou possibilidade de indagação. Expõem fenômenos considerados fortes ou violentos em linguagem “despudorada”.

Em seus traços gerais, essa leitura comum é um grande engano – mesmo na ideia da necessidade de um grande esforço para assimilação. Um sentido mais autêntico para as aspirações de uma peça como Mierda bonita  (Grupo Experiência Subterrânea) está em fazer o espectador se defrontar com fenômenos puros, pré-julgamento, de maneira a gerar nova experiência. E isso levando em conta que vivemos em uma cidade.

O que se ganha com isso é algo essencial para a vida de um lugar em nosso tempo como, por exemplo, Florianópolis: é o aprimoramento de uma visão realmente cosmopolita, que sabe viver, ler, comer e beber o que de plural se oferece num modo de vida que tem muitos valores e raízes convivendo junto. Isto é bem comum, não é mesmo? É sabermos que estamos fora da vila e que nem o mais evidente dos valores pode querer se impor como uma visão objetiva e unificadora. Há nisso algo irônico dentro da motivação desconstruidora de uma peça.

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E é nesse sentido que a expressão artística aproveita um espaço a princípio abstrato (o palco, lugar de ficção) para mostrar formas diferentes de se ver valores, tabus e não-ditos. A nudez, por exemplo, não dever ser vista no teatro contemporâneo como algo somente para chocar. Não há ali valor. Combina muito mais com ela um sentido puro, irônico, e eu diria terapêutico até, se não for forçar a amizade.

Terapêutico em que sentido? No sentido de durante todo o dia o corpo ser um tabu que deve se vestir e portar conforme regras e que na arte ganha espaço para que o próprio espectador, enquanto tal, se liberte e veja que, por mais que as regras comuns permaneçam em seu lugar mesmo com a existência do temido Teatro Contemporâneo, o seu olhar sobre elas pode mudar e amadurecer. Com essa Nova Maturidade conquistada, acredite: no seu futuro pode estar um emprego melhor, uma inteligência emocional mais apta a lidar diretamente com problemas de relações familiares e, até mesmo, uma sensibilidade e discurso mais aptos a reconhecer as sutilezas da culinária tailandesa, se me permitem a ousadia. A arte é um exercício que pode fazer o ser humano apreender a realidade de forma mais rica.

Além do mais, se o tema da sexualidade não é importante para você e sua mesa de bar, é bem provável que venha a ser vital para seu filho ou filha. Uma das intenções da peça, como dá a entender a descrição do seu evento, é tirar algumas coisas da “caixinha”. Para qualquer leitor de internet minimamente disposto a metáfora é clara: a todo momento lemos artigos como “Antes da chegada dos cristãos europeus, nativos norte-americanos reconheciam 5 gêneros”. É por essa razão que numa peça de dois atores e uma atriz todos desempenham ações tipicamente consideradas masculinas e femininas, por vezes mais parecendo 3 andróginos ou até mesmo 3 figuras “meramente humanas” em processo de auto-desnudação de seus papéis sociais.

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O teatro é uma das artes mais difíceis da atualidade, se não a mais difícil. Difícil de se fazer, difícil de se escolher como profissão, de atrair público, de se lidar com as opiniões burras do senso comum. Agora, para um olhar um pouco mais atento e diante da obra tão disposto a olhar para si quanto para outro,  é também, bastante provavelmente, a arte mais interessante. Ela pode nos apresentar a vida e a expressão nuas e cruas, com poucos ou nenhuns recursos espetaculares, e com aquela proximidade de corpos que não nos deixa fingir o despreparo.

PeçaMierda Bonita (Grupo (E)xperiência Subterrânea)
Quando: sábados no Museu da Escola Catarinense 3, 10 e 24/09 e domingos na Casa Vermelha 4, 11 e 25/09, sempre às 19h
Evento: aqui.

 

 

 

Caminhos para a crise #4

“Em sua ambivalência, a festa carnavalesca mistura positividades e negatividades, inverte-lhes a posição, reduplica a decepção da percepção-entendimento da ‘tragédia brasileira’, devorando a linguagem que a estabelece como fato irreversível. Este ato libertário não minimiza as contradições, antes aguça o despropositado, numa representação grotesca da dominação.” (Celso Favaretto, Tropicália, alegoria,alegria)

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