Desvendando os Cantos do Matita Perê #3

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Paul Klee – Refuge

Tal como a música, a poesia brinca de dissonâncias  e assonâncias. Ao juntar palavras, um poema costuma brincar (em maior ou menor grau) com os sons das palavras e também com a sutileza da relação de proximidade dos significantes. O exemplo mais emblemático disso no livro pra mim é o canto 98. Ali, temas como suavidade/energia, crença/diabolicidade, presença/ausência, concretude/metafísica explodem em uma musicalidade que pretendi própria.

Cada estrofe tem a sua musicalidade: a estrofe 3, por exemplo e em face do lirismo musical das duas primeiras, é bastante truncada propositalmente, ao passo que a estrofe 4 é exageradamente simplória, um tanto prosaica. Também há choques semânticos que visam ressaltar alguns efeitos como, na estrofe 2, o Matita Perê sumido ter como uma espécie de consequência lógica ele ser ouvido e isso ser, como no primeiro verso, algo límpido.

Há algo do trágico no livro também, aqui afirmado na primeira estrofe: o Matita só aparece depois que Deus se esconde e Deus se esconde porque, simploriamente, o Matita floresce. Mas o Matita floresce de raiva e ardor (a primeira palavra profana, a segunda religiosa) e, após Deus sumir e Matita ficar só, é justo o amor que resta. Matita ficou sozinho, mas só lhe restou, justo, o amor.

Da segunda para a terceira estrofe há um jogo pra mim muito interessante, pois, logo após o Matita Perê sumir, Deus reaparece, mas como dono de todos os segredos. Essa indeterminação é em seguida resolvida na afirmação de que “todos os tempos são carne”. Esse verso pode ser tido como central, pois desde que o livro estava sendo feito eu criei a brincadeira de que os cantos seriam algo como Guimarães Rosa indo ao baile funk – a união de uma sabedoria sagrada e metafísica, com a carne profanando a cultura em dança e violência.

Ninguém é dono da leitura de um poema e essas são só algumas ideias. Outras podem se desdobrar, melhores que estas. Mas este é talvez o meu poema preferido da coisa que mais gostei de ter feito.

Canto 98 do Matita Perê.

 

Meu voto

“Absorvidos pela conversa, mal notamos sua filhinha, que brincava nas vigas, quando a mãe nos chamou a atenção para a menina e a vimos atravessar o espelho. No salão dos espelhos, a ‘narrativa em abismo’ das vigas, ela se afastava cada vez mais de nós e, ao adentrar a distância, também adentrava o passado.

Mas, de repente, ali estava ela bem atrás de nós: tudo o que fizera havia sido pular as vigas em volta da sala. E ali estávamos nós, um crítico e um artista bem informados sobre a arte contemporânea, tomando aula de uma criança de seis anos de idade, cuja prática deixava nossa teoria muito para trás. Sua brincadeira com a obra trazia à tona não só as questões específicas do minimalismo – as tensões que sentimos entre os espaços, as imagens que vemos e as formas que conhecemos -, mas também os desvios gerais na arte das três últimas décadas – as novas intervenções no espaço, as diferentes construções do modo de ver e as definições ampliadas de arte.”

“A expansão horizontal da arte depositou uma carga enorme sobre os artistas e o público: à medida que o artista passa de um projeto a outro, ele precisa aprender a amplitude discursiva e a profundidade histórica de muitas representações diferentes – como um antropólogo que entra numa nova cultura a cada nova exposição.”

(Hal Foster, O retorno do real)

História e vanguarda em Triste Bahia (Caetano Veloso – Transa)

“A composição mais ambiciosa de Transa foi ‘Triste Bahia’, baseada em ‘A cidade da Bahia’, um soneto do século XVII do poeta barroco Gregório de Matos, que, por sua vez, era uma paródia de um soneto do poeta português Francisco Rodrigues Lobo. Um notório satirista da sociedade colonial baiana, especialmente da elite mercantilista e do clero, Gregório de Matos acabou sendo exilado para a colônia portuguesa de Angola, de onde vinham os escravos e um local conveniente para enviar excomungados e críticos. Em ‘A cidade da Bahia’, Matos lamenta sarcasticamente a corrupção e a decadência da capital baiana sob o controle de colonos avarentos e comerciantes portugueses. O soneto alegoriza a Bahia como uma cidade em ruínas após o declínio da indústria de açúcar.

‘Triste Bahia’, de Caetano, também é alegórica, apresentando uma colagem de diversos referenciais históricos que nunca se consolidam em uma totalidade coesa. No entanto, diferentemente do soneto de Gregório de Matos, ‘Triste Bahia’ vai além do olhar melancólico, escavando as ‘ruínas da história’ e expondo as fundações africanas da cultura e da sociedade baianas. Nenhuma região do Brasil foi tão dependente de escravos africanos como a Bahia. Após a abolição, ex-escravos e seus descendentes ocuparam posições subalternas na economia local, ao passo que manifestações da cultura afro-baiana, como o candomblé e a capoeira, eram depreciadas, sujeitas ao controle oficial e muitas vezes suprimidas. Até 1976, por exemplo, os terreiros de candomblé em Salvador precisavam ser registrados na polícia e obter autorização para realizar festivais públicos. ‘Triste Bahia’ é mais bem interpretada como uma colcha de retalhos sonora, composta de fragmentos musicais e poéticos heterogêneos. Seu referencial espacial é a Bahia, em especial Salvador e o Recôncavo, a região onde Caetano nasceu. O escopo temporal é amplo, incluindo a era colonial, o século XIX e o presente.

A perspectiva histórica multitemporal encontra eco nas propriedades formais da música, que consistem em várias camadas de polirritmos superpostos. Começando com as notas em staccato de um berimbau e uma salva de atabaques, a introdução evoca os rituais de convocação que dão início à dança/luta de capoeira. Caetano canta as primeiras estrofes do soneto de Gregório de Matos com a lenta pulsação de um ritmo de capoeira acompanhada por um violão.O lamento é abruptamente interrompido por uma referência a Vicente Pastinha, o aclamado mestre de capoeira de Angola: ‘Pastinha já foi à África/ pra mostrar a capoeira do Brasil.’ Nesse verso, Caetano se refere à viagem de Pastinha à África em 1966 para representar o Brasil no primeiro Festival Internacional de Arte Negra, em Dakar, Senegal.

Após a referência a Pastinha, o ritmo é intensificado e a elegia barroca à ‘triste Bahia’ dá lugar ao cântico de capoeira. Nesse ponto, Caetano cita diretamente a famosa ladainha de Pastinha que expressa desilusão em relação ao mundo: ‘Eu já vivo tão cansado/ de viver aqui na terra/ minha mãe, eu vou pra Lua/ eu mais a minha mulher/ vamos fazer um ranchinho/ todo feito de sapé”. O verso presta homenagem a Pastinha, mas também insinua o próprio sentimento de alienação em que Caetano vivia no exílio. O ritmo se acelera com o acréscimo de mais camadas rítmicas, incluindo o ijexá (um ritmo utilizado por grupos de percussão afro-baianos chamados afoxés) e o samba-de-roda. Caetano canta breves fragmentos de músicas de afoxé e sambas tradicionais baianos. Em um ponto, ele cita um cântico litúrgico católico à Virgem Maria, seguido de uma referência a uma ‘bandeira branca enfiada em pau forte’, símbolo comum em terreiros de candomblé. No final da música, as camadas de ritmos são velozes e abundantes, lembrando a atmosfera de um candomblé, quando os devotos começam a entrar em transe e receber os orixás. ‘Triste Bahia’, de Caetano, representa o que Robert Stam chamou de ‘estética do palimpsesto’, um conjunto em camadas de traços culturais superpostos ou justapostos de diferentes épocas e locais. Apesar de começar com o lamento de Gregório de Matos pela Bahia, a música de Caetano sugere a possibilidade de recuperação por meio das expressivas culturas afro-brasileiras.”

(Christopher Dunn – Brutalidade jardim)

A história de Sol Negro (Caetano)

Descobri esse fim de semana a história da música Sol Negro, uma das minhas preferidas do Caetano. Vale ler e ouvir ou ouvir e ler.

“Em meados de 64, quando recebeu o convite para organizar um show de música popular brasileira, na inauguração do Teatro Vila Velha, Caetano já sabia que podia contar com boa parte da turma de amigos que se reunia aos sábados na casa de Maria Muniz [atriz]. (…)

[João Augusto] Azevedo conheceu os irmãos Velloso no verão daquele mesmo ano, após uma apresentação do Teatro dos Novos, no ginásio de Santo Amaro da Purificação. O diretor ficou impressionado com Maria Bethânia, especialmente depois de ouvi-la cantar. (…)

Intitulado ‘Nós, Por Exemplo’, o show que ocupou o palco do Vila Velha, na noite de 22 de agosto de 64, tinha uma intenção bem definida: introduzir um grupo de jovens compositores, cantores e instrumentistas, em maior ou menor medida influenciados pela bossa nova, com pretensões de renovar a música popular brasileira. Provando que essa ambição não era descabida, o show acabou ofuscando todas as outras atrações da semana comemorativa. No dia seguinte, era o assunto das conversas nas faculdades e bares da cidade.

O número mais aplaudido da noite foi Sol Negro, uma espécie de canção-lamento que Caetano compôs especialmente para Bethânia e Gal cantarem juntas no show, explorando o belo contraste das duas vozes (esse mesmo duo foi incluído no primeiro álbum gravado por Bethânia, para a RCA, no ano seguinte).”

(Carlos Calado, Tropicália: a história de uma revolução musical)

 

Review de show: projeto Mwangaza

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Por que diabos a classe média brasileira sente repulsa pelas religiões africanas, medo de tudo que é marginal, revolta intelectual contra a pornografia do funk carioca ou contra a agressividade do rap e, no entanto, paga de bom grado um couvert de 30 reais ou um ingresso de 120 para ver samba genérico como se fosse patrimônio da humanidade, um samba mal tocado e de repertório formado por aquelas mais repetidas que Chaves no SBT, é um mistério mais insolúvel que o porquê da vida na Via Láctea.

O projeto Mwangaza, duo composto por Marissol Mwaba e Dandara Manoela, tocou para uma casa bem cheia para este dia 30 de dezembro no Bluebird, bar situado (e há muito tempo desejado) na avenida Mauro Ramos aqui em Floripa. Tocou não, “declamou”, talvez seja melhor palavra pra dizer, dado o silêncio de reunião de íntimos em casa cheia de carinho que dominou toda apresentação e atenção da plateia. A razão da existência do silêncio e da atenção pode ter várias explicações. Meu voto vai para a pureza, docemente amedrontadora, que as duas artistas transmitem.

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Pela juventude e espontaneidade delas eu cheguei a sentir que estava diante de duas colegas do colégio, sem com isso querer dizer de maneira nenhuma que o som tinha algo de “imaturo” – como se o que crianças e adolescentes fizessem fosse menos completo do que o que os adultos fingem fazer. É que o frescor dos sorrisos e da alegria, a espontaneidade dos cantos se completando, a presença de duas crianças fazendo percussão em algumas músicas, muito remetia a nascimento e novidade.

Marissol e Dandara são duas cantoras negras que encarnam a música negra. O que isso quer dizer é bem simples: as notas escolhidas para abertura de vozes tem um colorido afro; o ritmo é rico e simples não tendo nada a ver com a deficiência da cultura branca urbana a tocar tudo como se fosse “Knocking on  heavens door”; a empostação do corpo e da voz são, além de inteligentes, algo que destoa do padrão The Voice permanecendo “ao rés do chão”; a alegria milagrosa, a despeito do sofrimento e do não reconhecimento de sua raça, é regra, passando muito longe do culto à introspecção e melancolia que fazem a persona dos trágicos heróis dos brancos (escola James Dean, Chet Baker e Jeff Buckley).

As composições eram próprias ou de amigos próximos e a sensação era a de estar vendo um show extremamente sofisticado, artístico, por 10zão. A insistência de artistas em questões políticas e de apoio institucional desemboca em eventos ou manifestações como essa: ali a arte acontece, na sua frente. Você não está no Louvre, classe média, está na sua cidade, tomando chopp artesanal e vendo duas meninas esbofetearem a arte dita consagrada em nome do agora.

Vida longa ao Mwangaza: que suas letras de positividade, novidade e amor só tenham começado a se espalhar. Torço para as ver no Rock in Rio e nas periferias. Nesse show me senti vendo a vida se criando ao vivo, com a doçura necessária para sair do bar cheio de música e amor.

 

A polêmica da Carolina de Chico com Caetano

Textos sobre certa polêmica entre Caetano e Chico a respeito da versão do primeiro pra “Carolina” (Chico).

Primeiro o contexto, depois o texto do Caetano. Também a versão do Caetano no Spotify (com bem mais qualidade que as do Youtube). Mais abaixo a entrevista do Chico.

“A música mais controversa do álbum nem era uma composição de Caetano, mas uma versão despojada, de certa forma letárgica, de ‘Carolina’, de Chico Buarque, uma bossa romântica bastante orquestrada apresentada em seu terceiro álbum. Como resultado do incidente no festival de 1968 da TV Record, no qual Gil supostamente vaiou sua música, Chico Buarque na época tinha se distanciado dos tropicalistas. Os críticos interpretaram a versão de Caetano para ‘Carolina’ como uma paródia do lirismo de Chico Buarque. Em uma entrevista publicada n’O Pasquim, Chico expressou certa irritação com referência ao conflito real ou imaginado com os tropicalistas, argumentando que nunca foi um defensor ortodoxo da pureza na música popular brasileira. Explicou que não gostou da interpretação de Caetano para ‘Carolina’ basicamente por razões técnicas, mas que não tinha como dizer se de fato ela representava uma crítica. Fica claro na entrevista, contudo, que a versão de Caetano tinha irritado Chico.

(…)

O próprio Caetano escreveu um texto enigmático para O Pasquim, no qual tentava esclarecer suas intenções, mas o texto não foi publicado na época. No artigo, ele propunha que a figura da Carolina na música de Chico poderia ser entendida como a ‘antimusa’ da Tropicália, simbolizando o tipo de lirismo romântico que o movimento buscava criticar. No entanto, Caetano argumentou que o momento tropicalista já tinha passado e que múltiplas avenidas criativas haviam sido abertas, fazendo que fosse possível e necessária uma releitura sem ironia da música de Chico Buarque. Desse modo, a interpretação de Caetano para ‘Carolina’. Poderia ser vista mais como um pastiche no qual a música fora simplesmente assimilada a um estilo pessoal entre muitos outros, sem nenhuma pretensão de transcendê-la. A controvérsia ao redor de ‘Carolina’ nos proporciona um bom exemplo das ambiguidades da música tropicalista, na qual a fronteira entre sinceridade e sarcasmo e cumplicidade e crítica, muitas vezes não era clara.” (Christopher Dunn, Brutalidade jardim)

O texto do Caetano vale a leitura:

“Nelson Rodrigues disse que o povo brasileiro e a janela e o povo brasileiro na janela etc. etc. E Nelson Rodrigues é um poeta laureado, condecorado. Entretanto as janelas, mesmo no Brasil, têm servido para fins menos líricos do que aquelas aos quais ele se refere. Atenção para as janelas no alto. As feras do Saldanha. A avenida Presidente Vargas. O bicho brasileiro na janela. Eu gostaria de contar ao Chico Buarque de Hollanda a história da Carolina, de dizer como a história da Carolina é parecida com a história da Gatinha Manhosa. Eu um dia pensei que a música brasileira estava num beco sem saída. Então eu saí da música brasileira e caí na vida, como acontece frequentemente com mocinhas sergipanas que vêm morar em Salvador. E aí eu me apaixonei pela gatinha manhosa e, algum tempo depois, com o meu coração volúvel do signo de Leão, pela Carolina. Eu gostaria de contar, mas não tenho talento para narrar coisas tim-tim por tim-tim. Oh God, please, don’t let me misunderstood. Devagar. Na letra de um de seus sambas Chico Buarque contrapõe a lua e a televisão, a rua e a sala. Digamos que eu, vivendo na miséria cultural brasileira, estou nessa sala, vendo televisão. A minha irmã Carolina está na janela vendo a rua e o meu amigo Chico está na rua, vendo a lua. A minha namorada está no vídeo, eu estou na sala, meu sogro Chico está na rua. Eu estou no vídeo,a minha namorada Carolina está no vídeo e o meu inimigo Chico está no vídeo. Eu estou na rua, a minha desconhecida Carolina está na janela e o meu amigo Chico está no vídeo. Permutações simples de três termos complexos. Nelson Rodrigues está no vídeo. Impermutával. O fato é que eu já não penso que a música brasileira está num beco sem saída. Ao contrário, acho que só tem havido saídas. E nada mais. A tropicália tinha uma musa (uma senhora cujo nome eu não posso dizer) e uma antimusa (a Carolina). Talvez se eu dissesse o nome da musa alguém viesse a entender o significado da antimusa. Mas já não há saídas demais. Não é possível nenhuma tropicália. Não procure entender nada. Chega de confusão. Sabe o que é que eu acho? – eu acho que você não precisa saber da piscina, nem da margarina, nem da Carolina. Eu gosto de Jorge Ben, de Roberto Carlos, de Chico Buarque de Hollanda, de Caymmi, de “Chuvas de Verão”, de “Nazarin”, de diversas coisas. Don’t Think twice, it’s al right mo, I’m only bleeding. Podemos ser amigos, simplesmente; coisas do amor nunca mais. Eu bem avisei: vai acabar. De tudo lhe dei para aceitar. Mil versos cantei para agradar. E agora não sei como explicar. Lá fora, amor: eu vi em Kings Road, no “Picasso” eu vi a inglesa deslumbrante. Ela veio e sentou na mesma mesa que eu e na minha frente. Ela nem me viu. Usou meu fósforo e, quando vagou uma outra mesa, ela se mudou para lá. Eu fiquei pequenininho cantando Carolina bem baixinho como em brasileiro. Tenho certeza que nem as crianças que cantaram esse samba nos programas de calouros da televisão souberam tão profundamente como eu a beleza da Carolina. Eu sou brasileiro, os meus olhos costumam se encher de água, eu sou humilde e miserável, estou na janela. Como na Alfama, em Santo Amaro, Évora, Cachoeira. Eu sou amável e terno, medroso. Eu sou lírico como Vinícius de Moraes, como Erasmo Carlos. Eu sou manhoso e dengoso. Não há salvação para mim. Nelson Rodrigues é um poeta laureado. Condecorado.” (Caetano Veloso, O mundo não é chato)

A entrevista com o Chico n’O pasquim:

“Sérgio – A chamada música popular brasileira a partir de uma certa época sofreu uma série de coisas e você ficou como símbolo de uma determinada tendência. E o Caetano Veloso e o Gil, símbolos de outra tendência. Que é que você acha dessas duas figuras: Caetano Veloso e Gilberto Gil?

Chico Buarque – Aí a conversa vai se estender muito. O Gil e o Caetano eu conheço há muito tempo, antes desse negócio de tropicalismo, do movimento deles. Eu sempre adorei o que eles faziam e o que eles fazem, embora, ultimamente, o que eles têm feito, só uma coisa ou outra. Agora, essa espécie de ruptura, de opção que foi criada no público, não digo que foram eles que criaram, mas toda a divulgação que foi criada em torno do movimento deles. Foi uma coisa que eu enfrentei um pouco antes de ir embora, enfrentei com muita dor. Na época do festival da Record eu tinha uma música chamada Benvinda. Eu vi que estava toda a opinião pública dividida de uma maneira que não era real. Os jornais diziam: amanhã a grande decisão entre a revolução dos Mutantes e o tradicionalismo de Chico Buarque. Nesse festival eles nem estavam, eram os Mutantes que representavam o movimento tropicalista. Eu nunca quis ser tradicional e nunca pretendi ser, apesar de fazer samba, entende? Criaram uma imagem minha que foi muito ruim pra mim, me chateou pessoalmente. Não sei quem foi que resolveu fazer isso. Não sei de que forma eles contribuíram para isso. A partir daí eu perdi um pouco o contato com eles. Eu só quero dizer que eu não sou responsável sobre tudo isso e eu nunca quis levantar uma bandeira em nome da tradição da música e da integridade da música popular brasileira. Muito pelo contrário.

Fortuna – O Caetano Veloso já declarou que a interpretação dele da Carolina não é irônica. Você acha que ela é irônica ou não?

Chico Buarque – Também já é outra coisa de conversa. Depois dessa confusão toda que deu, da época desse festival e tudo, eu perdi o contato com eles, eu perdi a amizade deles. Então eu não entendo mais se o Caetano é o mesmo que eu conheci, que saía comigo e a gente cantava imitando João Gilberto, ele bebia e tinha mania de subir em árvore e tal. E o Gil, que eu conhecia mais ainda. Eu tinha realmente uma amizade muito grande com eles, contato mesmo. Foi uma coisa de um mês, dois meses que eu não os vi e que de repente apareceu todo esse movimento de tropicalismo que me assustou um pouco, porque veio um pouco em cima de mim, a imprensa toda me pegou pra bode expiatório. É claro que a música tem que evoluir, eu sou a favor de tudo que é evolução. Se eles tivessem me avisado antes: olha, o negócio é esse, talvez eu tivesse dito: é verdade. Inclusive eu dou razão. Eu gosto de muita coisa do tropicalismo, eu posso gostar mais de uma coisa, menos de outra. Por isso que eu digo que, na interpretação de Carolina, eu fico sem saber o que há entre a pessoa dele e o disco gravado. Eu ouvi o disco uma vez só e confesso que não gostei e não quis ouvir mais porque é um problema que eu não estava a fim de ficar pensando: será que ele gravou de boa-fé ou de má-fé? Não dá, eu tenho que conversar com ele, um dia ele me explica isso. Quem sabe um dia a gente vai se entender, porque pelo disco não dá, contracapa não tem e pelas entrevistas não dá pra concluir.

Chico Buarque – Agora chegou o Maciel, que pode ser mais esclarecedor a esse respeito. O Caetano que eu conheço, como o Gil que eu conheço, não é aquele negócio que as pessoas falam: o bom é o Caetano e o Gil de antes, o de agora eu não gosto, e tal. Não é isso que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que eles são os mesmos essencialmente, o Caetano não mudou. Aquele lirismo do Coração Vagabundo é o mesmo que tem no Baby e Objeto não identificado, com a diferença que ele faz a crítica de todo o lirismo do negócio que ele está cantando. Acontece que a coisa pega pelo lirismo e não pela crítica. Carolina entra nessa coisa, é uma coisa muito ambígua. A intenção dele pode ser inclusive de crítica, e não a mim, pessoalmente, a todo um espírito, a todo um modo de gostar de música brasileira. Eu acho que pode ser isso, mas é uma coisa que eu nunca me perguntei muito porque eu achei que não valia a pena ficar ouvindo a música e ficar dizendo: ele gravou assim ou assado.

Luís Carlos Maciel – Eu queria contar pra você, Chico, eu não sei se você sabe que quando o disco do Caetano saiu muita gente começou a falar: ele está fazendo crítica ao lirismo do Chico e tal. Eu escrevi um negócio que dizia que eu achava que não era absolutamente nada disso, e o que o Caetano tinha querido fazer era uma coisa absolutamente simples e absolutamente sincera. Depois que saiu esse negócio publicado eu recebi uma carta do Caetano, que eu tenho guardada, dizendo que tinha ficado contentíssimo porque finalmente aquilo que ele tinha querido fazer tinha sido compreendido. O que ele tinha querido fazer era exatamente isso. Da mesma maneira que quando ele canta aquele negócio do Fernando Lôbo, Chuvas de Verão, também não tem intenção crítica. São músicas que ele é que quis interpretar com a sinceridade que ele podia. Ele diz assim: eu acho muito chato que, no Brasil, pelo fato de eu ter feito um movimento, eu fiquei proibido de cantar francamente, com sinceridade. Qualquer coisa que eu faça agora todo mundo pensa que eu tenho intenção crítica.

Chico Buarque – O Caetano foi crítico de cinema, ele é crítico. Eu aceitei a crítica, não que seja direta a mim, mas a maneira como a música atinge o público. O problema que entrou aí e que foi a origem da discussão é porque, a mim, me pegou de uma maneira muito especial. Como eu conhecia muito eles e era muito amigo deles, quando começou o movimento me pegaram muito pra pele, não eles, mas o movimento. Saía entrevista dizendo isso tudo e aquilo, depois desmentiam, aí eu me cansei muito dessa discussão de querer saber se o Caetano e Gil gostam de mim ou não gostam de mim. Eu ouvi uma vez Carolina, eu não gostei. Achei que ele cantou muito perto do microfone e o violão está mal tocado, é uma questão muito técnica e boba, mas eu não quis entrar muito no fundo. Só isso: me cansei dessa discussão. Eu já sofri com isso dois anos atrás. Eu repito mais uma vez: eles eram muito amigos meus e quem brigou comigo foram eles, brigou não, quem se separou de mim foram eles. Eu nunca recusei uma aproximação, uma discussão sobre música ou sobre o que eles estavam fazendo. Eu estou aberto a tudo que é experiência e sempre estive. Quando houve o movimento ridículo contra a guitarra elétrica, porque ela estava ameaçando o samba, e tal, fizeram uma passeata e ficaram zangados comigo porque eu não levei a sério o negócio. Naquela época o Gil era desse movimento de samba puro, sem guitarra, brigava muito com Roberto Carlos. Eu nunca levei a sério esse negócio. Eu não sou contra a guitarra elétrica só que eu até agora sempre usei violão e gosto de violão, e acabou. O que não pode é essa radicalização que aconteceu antes em meu favor, contra a minha vontade. Tinha uma época que era: o Chico Buarque é que faz a música séria porque faz samba puro. Depois houve a radicalização contra, né? Porque a era da comunicação, hoje em dia, os astronautas etc. Aí eu acho que não dá.”

 

Entrevista com James Joyce

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Entrevista fictícia com James Joyce que escrevi em 2011. 

A escrita tem um espaço de liberdade muito grande. Defendo, e acho que essa é a minha cruz pra toda a vida, que parte do mal estar do nosso tempo no nosso país se origina da pouca atenção que damos aos livros. Na escrita você pode brincar de ser um entrevistador que não é Fausto Silva, mas Faust Silver e que entrevista um dos maiores escritores de todos os tempos, no caso James Joyce, como se ele só dissesse baboseiras (o que o escritor, no caso eu, supôs que em certo sentido poderia ser o que ele diria mesmo, do modo como escrevi). Parte da razão da nossa crise vem da espera de um salvador e da ausência de uma consciência individual (não confundir com um mero individualismo) que nos faça ver o tempo presente e o mundo nu e cru e não a espera por uma salvação coletiva e que fantasiosamente coincidirá com o nosso credo individual. Existe uma imensa ingenuidade e fragilidade na psique do brasileiro, a de ver o valor do outro pelo filtro do próprio valor e não o que antes se comunga por primeiro, depois a diferença. Como disse a cantora Björk em uma entrevista, se perguntassem no país dela “quem vai te salvar?” a maior parte das pessoas responderia “eu mesmo”. Nisso, repito, não se deve ver a defesa de um individualismo egoístico e sim a condição para que se deixe de fantasiar e ao invés se aprenda a viver em comunidade.

 

Faust Silver: Sr Joyce você acha que em 2011 ainda estarão lendo o seu Ulisses?
James Joyce: Com certeza não. No máximo estarão sonhando com o Finnegans Wake. De olhos bem abertos. E olha lá.

FS: E por que razão você acha que negarão a sua maior obra?
JJ: Porque minha maior obra não é essa. Está em andamento. Colocarei apenas elementos. Bebidas mais leves e ácidas (a cor é que é muito importante). Mil mantras curtos e grossos. Grandes bunkers elevados em que se esconda tudo, etc, etc Não me canso de ver o fato de que eu inventei o plágio.

FS: E a vanguarda então? Como que fica? Existirá?
JJ: Estão acertando os últimos detalhes. Apelidei-a de B.A. Mas a B.A. é como que um tom. Ponho homens e mulheres dançando em volta de B.A., em mil carrosséis de cavalos pretos, em grandes bandos de membros grandes, sem possibilidade de circulação. Abraçado à B.A. está um cantor com cara de sapo, baixinho, gordinho e de heróicas sutilezas em vozes femininas. Todos o acham um doce. Mas pus veneno dentro. Serve-se comidas pantanosas onde se enfiaram animais sujos benzidos em ervas. Tudo em escala micro. Grande será o horror.

FS: E porque você não descreveu estas visões?
JJ: Porque estou esperando a versão pirata. E estou com coceira na perna direita.

FS: Mas o gozo da original não lhe valeria a pena?
JJ: A maior das penas (a esferográfica) tenho-a nas minhas mãos.

FS: Compreendo. Haverá futuro então para a literatura?
JJ: Tão só e somente.

FS: Sr Joyce, o que você pensa da ficção científica?
JJ: O meu muito obrigado.

FS: Como você definiria a Europa em uma palavra?
JJ: Tichibum.

FS: James, existe a mulher perfeita?
JJ: Creio que não, mas a mais imperfeita é imensa, cheira à asa e tem e terá sempre amor no nome. É afeita a galhofas. Puns. E outros prazeres.

FS: Você acredita em inspiração ou apenas no fluxo de consciência?
JJ: Isto não é pergunta que se faça para uma bailarina profissional.

FS: De toda a história universal qual personalidade você mais admira?
JJ: Ficaria entre o asno e a borboleta.

FS: Algum filósofo?
JJ: Alguns.

FS: Quais?
JJ: Nenhuns.

FS: Para terminar, sr Joyce, para o senhor há algum acontecimento lamentável na história humana?
JJ: Talvez a letra Z de zebra, pela qual de vez em quando me vejo perdidamente enamorado.