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Todos somos, em nossos hábitos, pesquisadores amadores de música. Mas, lá no fundo, ainda assim e em 2017 quase todos mantemos uma curiosidade pra saber o que é poesia.

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Sobre o Kid A

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O que um tiozão do rock quer dizer com “Um Dark side of the moon só aparece de 50 em 50 anos” é bem evidente pra quem pensa e sente música, apesar de completamente falso – para quem não é tiozão. O fetiche de colocar um álbum ou um músico ou um homem acima de todos é bastante comum e facilmente explicável. Se o interlocutor de semelhante culto não tem uma verve ou argumento prontos, ele perde, na disputa do dia-a-dia, e vai para casa ferido, pensando que não é tão homem, ou que precisa gozar mais e melhor com o falo dos outros, ao invés de procurar um caminho por si mesmo.

Na minha modesta opinião o que esta banda inglesa fez e faz, dos anos 90 até hoje, vem para desafiar os tiozões. E é urgente, e mesmo político, que se pense e fale sobre. Acho incrível que tão pouco se desafie, em discurso claro e meticuloso, as tradições, mesmo numa arte anárquica, sensorial e jovem como é o rock. Isso é deprimente: ver gerações e gerações de quatro por Led Zeppelin, Beatles, Dylan, Novos Baianos e Mutantes, de uma maneira completamente automática e conformista, sem pensamento, sonhando com um Woodstock que já aconteceu há meio século – evento que, pra, em alguma hipótese, se repetir, deve ser outro, completamente outro.

Com Ok Computer o Radiohead gravou, na nossa cara, um outro Dark side of the moon. Outro aqui no sentido de “novo”, no sentido de mais uma vez e além, no sentido de nem precisamos comparar. Comparamos pra zoar os tiozões e impulsionar quem quer que queira fazer nova arte ao invés de viver de mitos e pseudo-experiências anteriores. Afinal, haverá experiência mais viva do que o agora, o hoje? É claro que não. Jovens enfastiados de Netflix e Lady Gaga deveriam botar pra tocar o Kid A – é só minha opinião. Talvez eu esteja sendo tiozão… Mas um tio mais moderno e com alguma pretensão de ousadia, para muito além de achar Lana del Rey ousado, diria eu.

Com Kid A, o álbum posterior a Ok Computer, o Radiohead foi ainda além de si mesmo. Como se não bastasse deixar,com o álbum de 1997, Nirvanas, Blurs e Jeff Buckleys muito pra trás em termos de realização estética (dando uma prova única de companheirismo, inspiração e continuidade) eis que o grupo (sim, grupo) foi ainda além, e registrou essa joia, para daqui adiante ainda muito contemporânea que é o álbum em questão. Não se trata de imaginar um disco com uma banda inspirada em estúdio, 5 caras contando um tempo mais ou menos quebrado com uma letra louvando uma pseudo-liberdade jovem. Trata-se de arte, feita para além de egos, pensada em pormenores e do zero, faixa por faixa, doendo a quem doer. (Apenas invejosos podem ainda hoje cunhar a banda como depressiva ao invés de sentar a bunda e ouvir quaisquer um de seus sons.)

A realização do Kid A é a de uma banda unir o máximo de liberdade e investimento com o máximo de pretensão artística e senso de contemporaneidade. O eletrônico soa aqui fresco. O mesmerismo, próprio da anti-musicalidade da música popular, é levado ao limite a cada segundo. A criatividade artística soa simples e cruamente bela – por exemplo na ímpar beleza dos vocais de Thom Yorke. O que pode soar chato e neurótico aos ouvidos dos distraídos, soa, mais de perto, a um só tempo epopéico e cotidiano. A doença que o Radiohead toca, aqui, é a doença que atinge a todos nós, no contemporâneo. Não há doença propriamente, em resumo. O que há é arte, para ser lembrada daqui a 500 anos, como Beatles e Rolling Stones.

Hoje

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“Se a vanguarda histórica [anos 10 e 20] e a primeira neovanguarda [1950s] tendiam frequentemente ao anarquismo, a segunda neovanguarda [60s] às vezes sucumbe a impulsos apocalípticos. ‘Talvez a única coisa que se possa fazer depois de ver uma tela como a nossa’ observa Buren num momento desses em fevereiro de 1968, ‘é a revolução total.’ De fato, essa é a linguagem de 1968, e artistas como Buren a empregam com frequência: sua obra procede da ‘extinção’ do ateliê, escreve ele em ‘Fonction de l’atelier’ [A função do ateliê] (1971); ela se propõe não simplesmente ‘contradizer’ o jogo da arte, como ‘abolir’ suas regras por completo. Essa retórica, mais situacionista que situada, ecoa os pronunciamentos oraculares, amiúde machistas, dos alto-modernistas. Nosso presente está destituído desse sentido de revolução iminente; também é punido por críticas feministas à linguagem revolucionária e repreendido por interesses pós-coloniais sobre a exclusividade não apenas das instituições artísticas, mas também dos discursos críticos. Em consequência, os artistas contemporâneos, preocupados em desenvolver a análise institucional da segunda neovanguarda, passaram das oposições grandiloquentes aos deslocamentos sutis (…) e/ou a colaborações estratégicas com diferentes grupos (…). Essa é uma forma de continuidade da crítica da vanguarda e mesmo da própria vanguarda. E não é uma receita para o hermetismo ou o formalismo, como às vezes se alega; é uma fórmula de prática. Também é uma precondição para qualquer compreensão contemporânea das diferentes fases da vanguarda.” (Hal Foster, O retorno do real)

Imagem: Jaloo