Para ler as palavras

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Ou: memórias presentes de um bovarista masculino

Todo texto é para os corajosos em enfrentar a palavra. Os ingênuos, não-corajosos (e eu os entendo porque a educação voltada a isso em nossa era é aterrorizante) prendem-se, ao ler palavras, na perspectiva da representação. Nesta, palavras estão sempre se referindo a duros objetos reais como, por exemplo, o leitor mesmo. Aqueles signos ali escritos são excitantes para que, “inevitavelmente”, se julgue os valores, as memórias e a maneira de interpretar o mundo daquele que, na experiência privada da leitura, as decifra. Não é uma perspectiva exata e, pra ser sincero, esta é a definição do próprio leitor ingênuo: aquele que, dada sua prática de leitura equivocada, faz com que o texto se dirija, em um seu julgamento, a objetos pesados e, de maneira equivocada, reais.

Aqui, vem a voz do leitor não-praticante e diz: “mas como um texto não vai se referir à realidade?” Não, não é isso o que se diz nestas linhas. Pra começar porque é impossível fugir à realidade, mesmo que um texto tente. Pegue o texto mais fabuloso, um texto que fale da vida em outro planeta e, se escrito num idioma terráqueo, ele estará dentríssimo, como qualquer outro, desta realidade. Se será julgado como bom ou não, aí sim podemos discutir.

O texto não se dirige a objetos reais no sentido de sua própria impossibilidade técnica: escrevo aqui sua pêra e não estou trazendo a sua pêra da sua realidade para outra, questionando assim sua propriedade. Entenda-se a loucura dos seres humanos: a palavra pra nós é tão forte que falar sobre algo que é nosso é visto como uma afronta, em hipótese, ao nosso patrimônio, material e espiritual, particular. Não vou falar da sua pêra, muito menos da sua banana ou dos seus melões, fique tranquilo leitor.

Como enfrentar a escrita? Ora, aqui evidentemente estou falando da escrita literária. Acabei de ler que o romance de Flaubert, Madame Bovary, foi julgado na França (ainda antes de sua edição em livro, dado que foi publicado em uma revista) com a acusação se referindo não ao autor ou ao narrador, mas à personagem, como se ela é que estivesse sendo julgada. Claro, dirá o nosso leitor: as pessoas tomam como exemplos as condutas que veem narradas na sua frente e as julgam como bons ou maus exemplos. Em plena era de abundância de sites pornôs, entretanto, fica bem difícil, cá entre nós, pensar a coerência das opiniões dos bons costumes.

Um resumo aos atentos: a moral burguesa é sempre dupla. Os conceitos de certo ou errado adaptam os casos concretos e não o contrário. Pois a situação é então bem clara: o escritor já buscou na ficção um lugar para não falar da pêra de ninguém. Mas narra uma história forte em que a “heroína” trai totalmente a moral e os bons costumes, como são explicitamente declarados , do seu meio. É possível o defender com o argumento de que está se referindo a algo que acontece, cotidianamente, e que apenas superficialmente pode ser mascarado pela sociedade. Mas há ainda mais do que isso: o texto tem consciência e supõe que o leitor seja inteligente para não tomar como exemplo aquilo que seria apenas um modo, bastante pobre, de tipo de escritura.

Não estamos mais numa vila, meus caros moralistas. A modernidade já hiperorganizou lugares e hiperchocou valores tem algum tempo. Supor que uma nação possa escolher um único deus pra acreditar, por exemplo, com tantas culturas se encontrando, criando e recriando, é ingênuo ao nível do bizarro. Claro, somos uma civilização de ingênuos. Os não-ingênuos aprendem a ler: e isto só poderá lhes dar estabilidade, saúde e, eu diria, verdade com um altíssimo custo.

Ainda a maioria das pessoas, em qualquer canto, choca-se ao ver algo estranho ser trazido a tona. O secretismo de dores, valores chocantes e realidades não-adaptadas talvez seja o supremo valor universal dessa sociedade de hipócritas. Para ver mais de perto um exemplo citado, é bastante impossível imaginar que a maioria dos pais religiosos não se masturbe diariamente vendo vídeos pornôs na internet. Esta falsidade continua indo longe. Todos somos mais fanfarrões quanto mais sérias são nossas feições. Uma terapia é rir silenciosamente do riso que silenciosamente se esgueira e esconde.

A questão do suicídio, por exemplo, preferida para ser esquecida conscientemente, é emblemática. A personagem de Flaubert se mata. Mas, vejam!, como se mata na literatura o texto continua vivo. É a própria definição de pecado! O senso comum vê nessa proeza da literatura algo como alguém propondo constantemente, com seu exemplo, que nos matemos todos. Como se Bovary se matasse a cada dia, a cada segundo, enquanto este texto imoral e imortal da literatura sobreviver. Assim os ingênuos montam sua ideologia e lotam novas igrejas que hoje funcionam, sintomaticamente, em salas comerciais. Custa caro pagar surdos ouvidos.

Entende-se melhor agora o que se quis dizer no primeiro parágrafo, suponho. A literatura traz à tona, sim, mas traz à tona espelhos. Se dói é porque nela você se vê. Se você imagina um paraíso na Terra em que não há ou deve haver dor e temor, parabéns, eis a razão da sua dor e temor (os meus tem outras razões, mais naturais). Como não haver temor num mundo onde culturas se chocam e corpos se arrebentam o tempo inteiro? Você acha que os acidentes de carro são escolhidos por deus? Se sim, é deus também, nesse caso, quem escolherá a quantidade de destruição que este mundo aguenta e, por saber o que está fazendo, é ele também que sabe que, apesar do crescimento exponencial de nosso apetite por destruição, o mundo aguenta mais, muito mais.

O bom-leitor deve se livrar de pensar na representação de objetos reais na atividade de sua leitura. Num sentido bem específico: a literatura, na forma como nossa cultura heroicamente desenvolveu, não existe pra julgar a consciência de ninguém e sim para fazer um alguém deambular, amorosa e calmamente, pela escrita. Pois que depois de andarmos longamente em círculos, algo muda: é nossa maturação que se faz sentir. Quão sábio é este cronista! Bom, confesso que não: por mais que estas sejam descobertas antigas, só hoje elas começam a se solidificar na minha vida em particular.

A leitura unicamente norteada por objetos concretos esbarra a cada sentença num: “será que eu sou assim? será que este autor está certo? será que vou gostar da ideologia representada aqui?” Perguntas ingênuas, completamente desconhecedoras do ser da literatura e que todos nos deixamos fazer (sim, o escritor inclusive) por falta de prática da leitura. O conselho base é: aprender a reconhecer um bom texto. Em época de internet é difícil. Acredito que acabamos lendo mais, mas de modo algum com mais qualidade (talvez seja o inverso). Procuramos o que queremos ler, quando muito, e o texto lido serve para afirmar nosso caráter, gerar a sublimação de nossos fantasmas, quando muito, no Facebook.

O bom texto? É aquele que nunca se prende ao modelo da representação e raramente vai se prender num modo de enunciado de acordo com um único gênero. Explico essa última parte: o bom texto oscila entre o científico, o poético, o lógico, o prosaico, a fofoca, a ironia, a inversão irônica, a demonstração, a descrição, a piedade, a crueldade, o humor ingênuo, etc, etc É como se o texto fosse, então, tudo menos a coerência exigida pelo senso comum, mas isto em nome de ser texto-mesmo, pura deambulação pelos limites do mundo, na experiência possível feita rica e gratuita linguagem.

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Menos amor, por favor!

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“A arte não reproduz o que vemos, ela nos faz ver.” (Paul Klee)

Então o artista ou ideólogo românticos (sofridos e humanistas) me vêm mais uma vez com essa: “mais amor, por favor”. Eu digo que não. Soa já e muito como um protesto classe média no shopping. Arrisco até adivinhar que esse chavão contemporâneo logo estará estampado em almofadas. Disse no outro texto e repito: o que esses dias nos mostram é que com crise é mais difícil protestar. E isso não quer dizer a invalidade do protesto, pelo contrário: quer dizer que as formas são sempre dissolvidas, incorporadas e precisam se reinventar. Quem comeu a forma? Foi o sistema? Não, eu garanto. Foi o tempo natural de movimentos de resistência se fortificarem e recriarem. Menos amor, por favor!

São outros caminhos que não o dessa procura por ultra-sensibilizar nossos contemporâneos — que na verdade são um Outro, um Diferente Imaginado. Até porque o que está em jogo aí não é a sensibilização e sim a culpabilização. Vejo um rostinho de criança atribuindo a culpa inteiramente ao outro, que aponta um fuzil, dizendo: “mais amor, por favor”. Pergunto-me se a criança vê o fuzil e se igualmente tem estrutura para o aceitar. Esperar mais amor é esperar o paraíso não-realizado, ou seja,é cair no estereótipo do ansioso, que é justamente aquele criado por essa sociedade absolutamente criticável. Saímos como espécies de neo-hippies burgueses bem estabelecidos. Dizemos mais amor dos andares superiores de um edifício confortável numa capital. Ou na praia, acreditando que não cuidar da alimentação é o erro dos nossos semelhantes. Acho que o buraco é bem, bem mais embaixo. Precisamos dar mais voltas, com as palavras e os pensamentos.

Não estamos nem perto de “mais amor”, nem como pequeno avanço, portanto essa intervenção é completamente irreal. “Mais amor” parece querer dizer, apenas, “eu é que tenho razão” (imagine o outro te ouvindo). E acho que a palavra (o verbo) deve servir para outra coisa que não ser a mera bandeira que representa mundos imaginários. Falei “nem como pequeno avanço” porque acho que o nosso tempo de conforto gerado por pílulas de placebo está acabando. Aonde sentimos um pouco mais de mais amor? Depois de uma peça acusatória, seguida de um show andrógeno, num teatro em ruínas, com cerveja à farta e póstumas boas trepadas? Perdão, mas é muito pouco classe média esclarecida. Agora, aqui, não quero criticar hábitos boêmios neutralizadores, quero criticar a nossa formação de discurso. Afirmo que o desempenho literário dessas palavras “mais amor, por favor” me soa como um quadro do Romero Britto.

Claro esteja: aqui este chavão é tomado apenas como simbólico. O que está por trás desta afirmação é muito maior do que a mera ocorrência pontual dela mesma. É o que acontece nas redes sociais diariamente, em nossos posts de esclarecimento. Mais uma vez, somos vítimas do modelo da representação, que critiquei no outro texto. O humanista se representa como o bom, como o capaz de entender a ação do amor e aceitar a alteridade e cai no vício da própria linguagem, que resulta em subsumir o outro, por meio da imposição de seu código. É como se parecesse: “sou um classe média esclarecido e reclamo do açougueiro goiano, de maneiras não-delicadas, e do empresário workaholic, que desconhece o pensamento sociológico, sendo estes evidentemente os responsáveis pelo mal-estar em que estamos imersos”. Prestem atenção: eu sou o consciente, o outro é o primitivo. Nada mais modelo ocidental, no pior sentido: preciso acusar alguém. Nada mais arcaico, também no pior sentido: acreditar em totalidades (acadêmicos esquerdistas x acomodados ricos) para erguer um bem-estar de consciência “coletiva” (os seus amiguinhos inteligentes).

Eu acreditaria num hippie que dissesse “mais violência, por favor” e num magnata de nome que dissesse “mais amor”. Mas, como a graça da brincadeira é projetar no mandamento o que gostaríamos de ver no outro e nos falta a nós mesmos, resultamos inertes nessas sociedades de egoístas acomodados (os humanistas) e pacifistas desesperados (os açougueiros alta classe). Não, não estou defendendo estes. Mas, acaso você diria para o feio “mais beleza, por favor?” Não. É inútil desejar mais beleza para alguém que deve desconstruir os padrões de beleza (ou do amor) a que está submetido. A classe média conservadora está bem convencida que ama. Seu protesto, despreparado e separado por um abismo que ajudamos a criar, é que é cheio de ódio. “Mais amor” é como mascar um chiclete no meio de uma guerra, querendo ganhar a guerra. É uma cena bastante romântica e não-engajada, eu diria.

Toda essa rede de perfis de Facebook de humanistas que emitem opiniões sociológicas é engraçada. “Mas, Diogo, é melhor que ser de direita.” Acho que não. O melhor não é o menos pior, e é o menos pior que acumula curtidas. Essa ideologia de “formadores de opiniões” é também ingênua. Não devemos formar, como pais da bondade, filhos-da-verdade-pronta. Escrevo num quadro imaginário “sou humanista”. E daí? Acho que muito melhor caminho é criar seres pensantes, no lugar desses seres prontos. Criarmos pessoas, sem divisões acomodantes. Quem sabe onde quer chegar, desiste de pensar. Acomoda-se com a imagem de um país imaginário onde acha que já está ou deveria estar, por direito natural, país cuja imagem cai em ruínas por conta da ação não-consciente de outros. Não existe direito natural, caríssimos. O país que você está é este, do desamor. Pise no chão. “Mais ódio”, dissenso, “por favor!” Amor é consenso e eu não concordo.

Os deuses também cospem: dica de álbum

De agora em diante, quando a minha amiga Lorena indicar um álbum vou ficar atento. (Ela foi quem me indicou Jeff Buckley há uns 12 anos atrás, sendo que bateu em mim há 3 anos.) O Amnesiac é o álbum preferido da banda preferida dela (que voltou a se tornar a minha, junto com o Pijama.) É o disco menos valorizado dos Cabeças – menos até que o Pablo Honey e talvez competindo apenas com o King of Limbs. Desdenhosamente apelidado, aqui e ali, de “Kid B“, o álbum é colocado como uma compilação de sobras da obra-prima que o antecede. Bom se todo Amnesiac é sobra, nem toda sobra é Amnesiac: ou mais vale ser sobra de obra-prima do que ser hype evanescente (não, Evanescence nãaaao). Destaco Pyramid Song, os vocais lindos de Knives out e o fechamento debochado do jazz neurótico de Life in a glasshouse.

Crítica literária padrão Globo

O grupo Globo se supera mais uma vez: além de fazer jornalismo ruim, agora se propõe a fazer crítica literária. Tipo comer sardinha e arrotar caviar.

O resultado: injustiça com o trabalho alheio.

Segue resposta do professor da UFSC Jorge Wolf à crítica amadora (no pior sentido) feita a seu trabalho de tradução, para livro de César Aira, por um colunista do jornal Globo.

O ápice da resposta:

“São dois exemplos, nesse caso: “agulhas” de relógio teriam de ser traduzidas como “ponteiros”; e o “pirulito” teria de ser “piu-piu, pipi, passarinho”, mas jamais pirulito! Basta dizer que no caso dos relógios há o uso de agulhas e de ponteiros, pois no texto original se aplicam as duas formas para relógios de diferentes épocas; e que no caso dos genitais masculinos… bem, esse caso não vale nem a pena discutir.”

O pipi do sr Bezerra vai ter de se ver com a Loba.

 

Texto completo em: Resposta a um senhor parágrafo.

 

Jazz na ilha: Wslley Risso – Verdade (CD)

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Fotos: Jordane Câmara

Quando grande arte (madura, forte, insuperável em sua força de sentido) acontece na sua cidade, do seu lado, à parte a todas as reclamações de falta de apoio estatal, pode ser que você não repare. Quando reparar, porém, a bomba será grande. Os artistas são reais: os grandes pintores clássicos, os grandes polemistas, as grandes figuras da boemia, escritores, atores, poetas, cômicos, escondem-se na sua cidade e criam silenciosamente. É o caso do CD Verdade do guitarrista paulista, radicado em Florianópolis, Wslley Risso (pronuncia-se Úslei Rizo).

A qualidade técnica de uma arte conta, mas importa menos, muito menos do que sua verdade. Só isso explica o adorarmos os traços mágico-infantis de um Miró, a novela em que um ser humano acordou virado um inseto, a letra de música que repete “Eu vou pra Maracangalha”. Ali há técnica, mas há também outra coisa. O sentido de um trabalho deve ser procurado menos nas sílabas, do que na maneira sutil, mas plena, de como ele efetiva sua presença. Isto posto, vem a pergunta: o que é Verdade?

Wslley-Risso-01Arrisco aqui uma verdade: coloque 100 assegurados bons guitarristas de jazz pra tocar e o Wslley entre eles. O som desse cara vai soar nitidamente único, como poucos, talvez 5 entre esses 100. Para um especialista no gênero cada um dos 100 terá suas marcas, mas tenho plena convicção que, tanto para um leigo quanto pra ele, o som do Risso vai soar autêntico, forte e explicitamente original só como os tantos que citei. Como se não bastasse isso, sua técnica é exuberante.

Sendo amigo do sujeito, posso apresentar algumas hipóteses pra esse fenômeno: diferentemente da maioria dos músicos de jazz ou música instrumental em geral no Brasil (eruda incluída) o Wslley precisou tocar guitarra. A grande maioria dos profissionais do estilo tiveram base material e conforto pra se dedicarem ao instrumento. O Wslley não. Com sua guitarra ele abriu caminho na vida. Saiu das periferias de São Paulo pra hoje viver bem, em Florianópolis, de seu instrumento e sua música. O som do Verdade exala, em tudo, uma sofisticação que você não encontrará NUNCA te esperando em um empório gourmet.

A diferença dessa força de sentido em relação ao estudo técnico, que muitas vezes soa brochado, para ouvidos minimamente atentos, é bem evidente: está na verdade do som, que nunca se deixa confundir com o blasé classe média alta estou-tomando-um-vinho-falando-de-negócios-e-louco-para-comer-garotas-de-programa-alta-classe-depois-desse-somzinho-relax-o-tal-do-jais. Esta tosquice que muitas vezes impera, muito infelizmente, no imaginário social associado ao jazz.

Sobre as músicas do Verdade em si o melhor ainda: gravado ao vivo em estúdio com músicosWslley-Risso-03 maravilhosos, a obra soa como toda música devia soar: como se cada detalhe tivesse extrema qualidade e ao mesmo tempo fluência, sentido, espontaneidade. Coisas que a Lady Gaga vai atingir gastando milhões, são atingidas, em maior qualidade, com, sei eu, algumas centenas de reais por 6 horas de estúdio (estou chutando, mas tudo foi gravado num domingo de páscoa, em 2012).

Na bateria Victor Bub é um monstro. Seu som é agressivo, o sentido das suas levadas, viradas e improvisos é claríssimo. É algo que bate na sua cara. Que suingue e que personalidade! No baixo Rafael Calegari além de ter dado talvez a sorte de seu som ser captado com grande destaque (é possível ouvir em mínimos detalhes o que faz, coisa rara para o instrumento baixo), é um músico cuja criatividade e domínio da beleza são impressionantes. Os floreios que faz, por vezes serpenteando frases complicadas em frações de um espaço que se abriu na música, são lindíssimas. Parecem ter sido arranjadas, mas são jazz.

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Giann Thomasi no sax tem a missão de ser como que o cantor da banda. Seu sax se concentra na beleza, na melodia e na inventividade significativa, nunca na masturbação que se esconde no incompreensível, e pretende simular um pênis em forma de música, como em grande parte dos saxofonistas. Quando você pensa que ele vai se entregar à extensão mesmerizante de uma mesma ideia noise, ele ressurge (qual fênix, poderíamos zoar) com uma frase melódica de modulação e frescor absolutamente novos.

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O Wslley no CD é a encarnação do que falei antes, sobre suas virtudes: na primeira música, Afeto, calma, lentidão e beleza são escolhidas pra abrir o trabalho. Você começa a se sentir em Florianópolis, ou seja, no litoral, respirando o real sentido (para além do medíocre espetacular burguês) de morar num lugar calmo, de beleza máxima e carne forte. Esta impressão da localidade vai durar o álbum inteiro.

Da segunda música em diante (de Outono a Victor Assis Brasil) a pegada do jazz contemporâneo se instaura (exceção à monkiana Cacaruso, quinta faixa): ritmos brasileiros; harmonização sofisticada, dissonante, mas quieta; polirritmias tecendo arranjos e diferentes “ambientes” dentro da mesma música; improvisos individuais dos intrumentos mas que não estancam a criatividade e enormes variações dos demais; etc

Wslley-Risso-06Wslley, modesto que é, não tem o som da sua guitarra colocado em primeiro plano. Toca melodias, faz harmonias discretas mas de técnica de cair o queixo. Nos improvisos mostra a que veio: provar com quantos tijolos se faz uma identidade. As diferentes técnicas que usa estão a favor do sentido, da força e da criatividade viva em que aparecem, não da mera compilação virtuosística. O humor e o “acidente inspirado” completam a receita deste som de guitarra que, pra inveja dos roqueiros, é muito mais agressivo sem usar um único bend.

Arrisco mais um palpite: depois do mestre Toicinho Batera, o nome do Wslley talvez seja o mais forte do jazz em Floripa. E repete-se aqui um mote latente em todo o texto: para chegar ao sofisticado não é preciso gastar dinheiro. E se você depender de dinheiro pra chegar ao sofisticado, meu caro, provavelmente você vai perdê-lo é para sempre. O sofisticado, que é o rico de sentidos, é grátis. Basta ter afeto e verdade.

Gostou do texto? Ouça o som aqui.

Para adquirir o cd, procure o Wslley no Face ou vá até a escola Compasso, no centro da ilha. Vale a pena!

Como NÃO fazer arte

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Infância e arte. E eu também sou burguês.

O teorema é claro. Assim não se faz arte: sendo bastante anti-burguês no discurso e infinitamente burguês na prática. Sim, somos todos burgueses; e eis nossa auto-imposta carapuça: o burguês esconde o que pensa e pensa em privado. Fala pelas costas, sozinho ou em grupo, corrigindo o erro de um sempre-ausente sem nunca mostrar diretamente para este o que em transparência pensa. “Estou apontando telepaticamente.” Ri, dessa e de outras suas próprias piadas. Sim, para bom entendedor meia palavra basta e a vida é ciência. Mas, como se faz arte?

Não sei, direi aqui. Acontece que este burguês-artista, aqui em questão, não é assim tão bem resolvido quanto pensa. E qualquer semelhança com a falta de arte em nosso tempo não é mera coincidência.

Mas se a arte serve pra gente se expor, a escrita é a arte desse escriba. E eis uma frase de efeito: a fofoca é o puro charme. Ser maduro, ao que eu me lembre, é, pelo contrário, ser capaz de dizer toda verdade. Se um grupo se reúne pra criar um consenso, esta verdade deveria ser ainda mais forte e fácil de ser dita. E sem nem medo, nem vontade de ferir.

Não é o que acontece na sociedade burguesa, ao menos nesta que temos diante dos olhos (Brasil, ao menos, 2017, ao menos) . Eis o nosso silogismo secreto, o muro que nos separa de fazer “a arte do encontro”: quando está favorável, a amizade é possível; quando não está te sinalizo, por metáforas esotéricas, nunca por gesto. Assim nos ajuda o novo misticismo, que vira também figura de linguagem, dada sua excentricidade.

E a arte que acontece? Este tão pesado texto explica assim: por esse recalque socialmente aceito (mas nunca sublimado) trazer como consequência a auto-repressão de uma enorme quantidade de energia, o artista torna-se naturalmente de esquerda — ou vice- versa, ora bolas, o esquerdista vira arteiro. Sendo crítico em seu discurso social hipócrita, o charme evanescente da fofoca pode continuar nos bastidores.

A arte que vai vir daí será uma merda, mas quem se importa com arte quando o essencial é (sobre) viver? Se o essencial estiver favorável (essencial na sociedade burguesa: dinheiro, sexo e fofoca) pra que o bom/boa burgues/a vai gastar heroísmo fazendo arte forte? A economia manda aqui também, nessa poupança. As dualidades de discurso (como esquerda x direita, frustrado x bem-sucedido), em sua lógica clara, favorecem, assim.

A psicanálise (inautêntica, que fique claro) entra também na jogada. Axioma: o outro é o mal-resolvido. É a quem falta dinheiro pra fazer psicanálise (sendo que ele, além disso, desconhece aquela barganha possível, inerente ao serviço medicinal). Seus complexos são visíveis. Falta de caráter virou patologia — para atribuir aos outros.

“Qual seria a saída, sábio escritor?” Sim, o sábio escritor tem uma saída. A saída é ter caráter, ao menos na fachada. Os canalhas também fazem grande arte, mas porque têm um teatro existencial que convence. Com caráter e teatro se faz forte arte e forte qualquer outra coisa. Então, chame para um papo o seu inimigo ou amigo a quem você quer “dar um toque”. Nem tudo são protestos de classe média na neutra rua.

Escute a verdade do outro. Posicione-se para tanto. Sim, os outros também têm verdade. Se você tiver medo de ouvir, junte-se a um grupo para estabelecer a conversa. Elimine a agressividade e deixe a vida fluir. Será o seu maior aprendizado, meu caro Duchamp Jr, queridíssimo Joyce filho, nobre nova Clarice, linda e saudável Kahlo Jr. Ou dengoso, e não menos amado, brilhante lacaniano.

Ps: Este texto não é agressivo. Não é possível inventar uma nova morte. Causa Mortis: foi tirar o rabo preso e sua vitalidade acabou no ínterim do ato.